donde, infeliz profetisa, com ódio e amargura externou-se:
‘Guerras? Depois de matardes meus bois e vistosas ovelhas,
progênie de Laomedonte? E, por cima, quereis expulsar-nos,¹
as inocentes Harpias, do reino dos seus genitores?
Ouvi, então, o que tenho a dizer-vos, sem nada ocultar-vos.
Tudo o que Apolo aprendeu com o mais forte dos deuses, e logo
me revelou, eu, das Fúrias a mais poderosa, vos conto.²
Vossos anseios à Itália vos levam. Com prósperos ventos
heis de alcançar por sem dúvida a Itália e adentrar os seus portos.
Mas, antes mesmo de vossa cidade, querida dos deuses
de muros altos cingirdes, haveis de sofrer de sofrer dura fome
por este crime: forçados sereis a roer até as mesas’.
Uma in praecelsa consedit rupe Celaeno,
infelix vates, rumpitque hanc pectore vocem:
‘Bellum etiam pro caede boum stratisque iuvencis,
Laomedontiadae, bellumne infere paratis
et pátrio Harpyias insontes pellere regno?
Accipite ergo animis atque haec mea figite dicta,
quae Phoebo pater omnipotens, mihi Phoebus Apollo
praedixit, vobis Furiarem ego máxima pando.
Italiam cursu petitis ventisque vocatis
ibitis Italiam portusque intrare licebit;
sed non ante datam cingetis moenibus urbem,
quam vos dirá fames nostraeque inuria caedis
ambesas subigat malis absumere mensas’.
Livro III
Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes
¹ Laomedonte: rei de Troia, pai de Príamo, que não cumpria o que pactuou com os deuses.
² Aqui Virgílio assimilou as Harpias às Fúrias, também chamadas Eumênidas ou Erínias.
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