terça-feira, 23 de novembro de 2021

Gregos e Presentes

Nisso, Laocoonte ardoroso, seguido de enorme cortejo,
da sobranceira Almedina desceu para a praia, e de longe
mesmo gritou: ‘Cidadãos infelizes, que insânia vos cega?
Imaginais porventura que os gregos já foram de volta,
ou que seus dons sejam limpos? A Ulisses, então, a tal ponto
desconheceis? Ou esconde esta máquina muitos guerreiros,
ou fabricada ela foi para dano de nossas muralhas,
e devassar nossas casas ou do alto cair na cidade.
Qualquer insídia contém. Não confieis no cavalo, troianos!
Seja o que for, temo os dânaos, até quando trazem presentes’.
Disse, e arrojou com pujança viril um venab’lo dos grandes
contra os costados e o ventre abaulado do monstro da praia
no qual se encrava a tremer; sacudida com o baque, a caverna
solta um gemido, abaladas no fundo as entranhas do monstro.
Oh! se não fosse a vontade dos deuses e a nossa cegueira,
com o ferro, então, deixaríamos frustra a malícia dos gregos,
e em pé, ó Tróia, estarias, o paço luxuoso de Príamo.


Primus ibi ante omnes, magna comitente caterva
Laocoon ardens summa decurrit ab arce,
et procul: ‘O miseri, quae tanta insania, cives?
Creditis avectos hostes? Aut ulla putatis
dona carere dolis Danaum? Sic notus Ulixes?
Aut hoc inclusi ligno occultantur Achivi,
aut haec in nostros fabricate est machina muros,
inspectura domos venturaque desuper urbi,
aut aliquis late terror; equo ne credite, Teucri.
Quidquid id est, timeo Danaos et dona ferentes’.
Sic fatus validis ingentem viribus hastam
in latus inque feri curvam compagibus alvum
contorsit. Stetit illa tremens, uteroque recuso
insonuere cavae gemitumque dedere cavernae.
Et, si Fata deum, si mens non laeva fuisset,
impulerat ferro Argolicas foedare latebras,
Troiaque, nunc stares, Priamique arx alta, maneres.



Livro II

Eneida – Virgílio – tradução de Carlos Alberto Nunes

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