terça-feira, 6 de setembro de 2022

Literatura e Pátria

Escolhendo Os Lusíadas para objeto de meus estudos, acredito que tomei um assunto nacional. Os Lusíadas é a obra-prima da literatura portuguesa, que é a nossa.

Vários ensaios, e alguns de grande merecimento, fizeram-se entre nós com o intuito de dar-nos uma literatura própria, mas ela ainda não existe. De duas sortes foram os trabalhos, que se conhecem, feitos com essa intenção. De uns o assunto era a vida de nossos indígenas, de outros era o estado atual de nossa sociedade.

Uma literatura, inspirada pela vida errante das tribos primitivas, que se servisse amplamente de seu rude vocabulário, que não nos descrevesse senão os seus costumes, seria bem uma literatura tupi ou guarani, mas não a brasileira. A poesia pode idealizar o caráter, o coração, as guerras, a civilização até desses ferozes habitantes de nossos sertões; mas a poesia, que se impuser essa aliás bela missão, será uma poesia fantástica, sem direito a ser nacional.

A sociedade brasileira, da qual a literatura deve ser a expressão, é exatamente aquela que substituiu no gozo deste país os seus habitantes primitivos. Tornarmo-nos nós os cantores dessa vida, que só tem poesia para aquele que não aceita plenamente a teoria de progresso moral, é, já não digo, levantarmo-nos contra nossa própria existência neste lado do Atlântico, mas, sermos os poetas de uma raça que não é nossa. Pode isentar-se o poeta de qualquer servidão de sentimento, mesmo da do patriotismo, mas não pode querer ser o poeta natural de uma sociedade, que ele nega radicalmente. A vida do Brasil começou em 1500; antes existia o seu solo, mas com outro nome e povoado por outra raça. O domínio dessa desapareceu, barbaramente perseguido, é certo, e refugiou-se no interior ainda virgem do país. Nada ficou sobre o solo atestando a antiga existência das tribos primitivas; nenhuma forma de sociedade estável havia entre elas, enquanto no Peru os Incas tinham o seu trono firmado no coração de uma raça, cujos monumentos e construções maravilharam os conquistadores.

Aquele que contasse da vida errante, que povoasse o deserto de ilusões, que pusesse no coração de nosso índio os sentimentos mais ternos do seu, que fizesse-o muitas vezes eco de suas próprias dores, que lhe desse a eloqüência de um tribuno e a imaginação de um poeta, esse poderia fazer uma obra admirável de fantasia; faria mesmo uma obra da mais verdadeira e ideal poesia. O Uraguai dá-nos testemunho disso; mas o poeta, por maior que fosse o seu gênio, não faria um poema nacional. “A literatura, frase de um dos mais profundos espíritos da Restauração, de Royer-Collard, é a expressão acidental da sociedade”, e o que tem a sociedade brasileira com as tribos indígenas?

Gonçalves Dias, por exemplo, nos seus Cantos compreendeu bem isso; eis porque parece-nos ter tão pouca razão o Sr. Alexandre Herculano em chamar às Poesias americanas a verdadeira poesia nacional do Brasil, quanta teve ele em lamentar que elas não ocupassem maior espaço no volume. Gonçalves Dias é um dos poetas que mais tiveram o sentimento americano; mas suas poesias indígenas seriam menos facilmente da poesia tupi do que seriam do cancioneiro espanhol suas sextilhas de Fr. Antão. A cor local não constitui a originalidade de uma literatura. Se a cor local bastasse para isso, Gonçalves Dias seria andaluz do tempo dos sarracenos, Byron seria veneziano ou grego e Shakespeare seria ao mesmo tempo bretão, romano e mouro.


Camões e os Lusíadas – Joaquim Nabuco

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