terça-feira, 20 de setembro de 2022

Aparência e Verdade

The first, of gold, who this inscription bears,
“Who chooseth me shall gain what many men desire.”
The second, silver, which this promise carries,
“Who chooseth me shall get as much as he deserves.”
This third, dull lead, with warning all as blunt,
“Who chooseth me must give and hazard all he hath.”
How shall I know if I do choose the right?

Gold:

All that glisters is not gold,
Often have you heard that told.
Many a man his life hath sold
But my outside to behold.
Gilded tombs do worms infold.
Had you been as wise as bold,
Young in limbs, in judgment old,
Your answer had not been inscroll’d,
Fare you well, your suit is cold.

Ouro:

Trad. Dr. Domingos Ramos

Nem tudo que luz é ouro!
É bem sabido o ditado.
O meu aspecto põe medo;
A muitos já tem matado...

Em campas áureas há vermes.
É sempre d’ouro a prudência:
Antes ser velho em juízo
Do que novo sem ciência.

Foi assim que tu tiveste
Resposta à tua ousadia...
- Vai em paz e tem saúde
A tua esperança é bem fria.


Trad. El-rei D. Luís I:

Nem tudo o que luz é ouro
Reza o ditado vulgar,
Que bem se pode afirmar
É do bom-senso tesouro.

Quantos, com raro candor,
Têm dado a própria existência
Pela enganosa aparência,
Do meu externo fulgor!

Pois nestas urnas que cerra
O lavor d’áureo metal
Tem morada sepulcral
Os torpes vermes da terra.

Ó vós, quem quer que seja
Que trouxe aqui o destino,
Se houvésseis prudência e ti
À vossa ousadia iguais;

Se houvésseis na mocidade
Mostrado com precisão
Que idade já da razão
Fora da energia a idade.

Nestes caracteres meus
Não veríeis hoje escrito
Por desengano expedito
Perdeis tempo; i-vos com Deus.


Silver:

The fire seven times tried this;
Seven times tried that judgment is
That did never choose amiss.
Some there be that shadows kiss;
Such have but a shadow’s bliss.
There be fools alive, I wis,
Silver’d o’er, and so was this.
Take what wife you will to bed,
I will ever be your head:
So be gone; you are sped.

Prata:

Trad. Dr. Domingos Ramos

O fogo derreteu-me sete vezes...
E, para um pensamento nascer forte,
Outras sete em cadinho se fundiu
Para não ser entregue à simples sorte.

A sombra que se abraça é sempre sombra;
E mesmo sombra vã duma ventura,
Coberta d’ilusões, d’argênteas vestes,
Que importa, se isso tudo for loucura?

Desposai a mulher que vos agrade...
Esta imagem que tendes bem presente
É a vossa, parti: não mais vos deixa...
Há de seguir-vos sempre, eternamente.


Trad. El-rei D. Luís I:

Sete vezes sucessivas
Fui ao fogo temperar;
Outras tantas, no seu lar
Curte o sábio alternativas.

Poderá gabar-se alguém
Nas andanças do seu fado
De mão ter jamais errado
A escolha entre o mau e o bem?

Através de névoa escura,
Tomam não poucos varões
O espectro das ilusões
Pela imagem da ventura.

Sobram néscios magistrais
Donde a rudez se evapora,
Bem que de prata por fora;
Eu, por mim, sou desses tais.

Que busques no burburinho
Ruiva ou loura ou de outra cor,
É cópia minha, senhor
Entrouxa e põe-te a caminho.


Lead:

You that choose not by the view
Chance as fair and choose as true!
Since this fortune falls to you,
Be content and seek no new.
If you be well pleas’d with this,
And hold your fortune for your bliss,
Turn to where your lady is,
And claim her with a loving kiss.

Chumbo:

Trad. Dr. Domingos Ramos

Nem sempre há alegria em novidade:
Não quiseste saber das aparências,
E alcançaste assim felicidade;
Contenta-te com ela e mais não queiras;

Se te julgas feliz com tua sorte,
Serás fiel àquela que te chama,
Beijando-a e amando-a como tua.
É o eterno amor que tal reclama.


Trad. El-rei D. Luís I:

Tu que não olhas somente
Aos atraentes ardis,
Aplaude a escolha feliz
Do teu juízo prudente.

Se te leva ao galarim
A tua sorte ditosa,
Alegre a fortuna goza
Do que o céu te dota enfim.

Da ventura que te cabe
Se te contenta o quinhão,
Se entender esta lição
O teu espírito sabe.

Volve os olhos com ardor
A quem anela a tua alma,
E acharás triunfo e palma
Num beijo – beijo d’amor.


O Mercador de Veneza – William Shakespeare

Nenhum comentário:

Postar um comentário