ROMEU
Tal como se esse nome semelhante a uma bala arremessada pelo canhão mortal a assassinasse; tal como se a mão maldita do que tem esse nome assassinasse o parente. – Oh! Dizei-me, irmão, dizei-me em que vil parte do meu corpo se aloja esse nome! Dizei-mo para que eu possa destruir este odioso edifício da minha existência. (Desembainha a espada).
FREI LOURENÇO
Oh! Desesperado! Reprime a tua cólera! És tu um homem? O teu aspecto grita que sim, mas as tuas lágrimas são de mulher e as tuas ações insensatas são dum irracional furioso. Oh! Homem mulheril, ou antes, oh! Animal feroz com a forma humana! Estou espantado! Pela minha sagrada ordem, nunca julguei que a tua alma fosse assim desiquilibrada! Depois de haveres morto Teobaldo, vais matar-te a ti? Vais matar também essa pobre senhora que vive da tua vida, cometendo contra ti mesmo esse danado ato de ódio? Por que razão amaldiçoas a tua existência? Amaldiçoas o céu? Amaldiçoas a Terra? Nascimento, Terra e céu, tudo se encontrou em ti e tu queres perder tudo ao mesmo tempo? Tu ultrajas a tua beleza, teu amor, o teu espírito! Todos esses bens abundam em ti, e tu, à maneira dum usurário deformas cada um desses bens do legítimo uso que melhor poderiam ornar a tua beleza, o teu amor, o teu espírito! O teu nobre aspecto não passa duma figura de cera, porque está em contradição com a força moral do homem; o teu amor, que juraste, não passa dum perjúrio oco, porque quer matar aquela bem-amada a quem fizeste voto de bem-amar; o teu espírito, esse ornamento da beleza e do amor, desnaturado pelo teu proceder, é como pólvora contida na cartucheira do soldado desastrado, que a própria ignorância inflama! Tu mutilas-te com os próprios meios de defesa. Vamos, levanta-te, homem, Julieta vive! Essa Julieta é aquela por amor de quem tu estavas ainda há pouco como morto! Vês como és feliz por esse lado? Teobaldo quis matar-te e foste tu quem o matou. Também foste feliz por isso. A lei que te ameaçava de morte mostrou-se tua amiga e transformou a morte em exílio; ainda por isso és feliz. Sobre a tua cabeça chove uma tempestade de bênçãos; a felicidade namora-te com o seu mais belo vestuário; mas tu, como se fosses criança mal-educada e amuada, fazes esgares à fortuna e ao amor. Tem cautela, tem cautela, porque os homens que assim procedem morrem miseráveis. Vai, vai para junto da tua bem-amada, como tínheis combinado, sobe ao seu quarto, consola-a, mas tem cuidado, não fiques até à hora do toque de alvorada, porque então não poderias sair da cidade, para ires para Mântua, onde deves viver até que eu veja ocasião de revelar o teu casamento de reconciliar os vossos pais, de implorar o perdão ao príncipe, de te trazer para aqui dois milhões de vezes mais feliz do que partes infeliz. Oh! Ama, vá adiante; dê os meus cumprimentos à sua senhora. Recomende-lhe que mandei deitar cedo todos, porque os desgostos porque têm passado hão de dispô-los ao descanso. Romeu já lá vai.
Romeu e Julieta – William Shakespeare
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