Capítulo IX
Sobre os quatro degraus
Destes cinco degraus, o primeiro, isto é, a leitura, pertence aos iniciantes, o último, isto é, a contemplação, aos perfeitos. E, quanto aos degraus intermediários, quem mais se ascender por eles, mais se aproximará da perfeição. Por exemplo: no primeiro degrau, a leitura concede o entendimento: no segundo, a meditação fornece o conselho; no terceiro, a oração pede; no quarto, a ação busca; e no quinto, a contemplação encontra.
Portanto, se lês e tens o entendimento e já sabes o que deve ser feito, estás no início do caminho do bem, mas ainda não é suficiente para ti, ainda não és perfeito. Suba, então, à fortaleza do conselho, e medite como conseguir realizar aquilo que você aprendeu que deve ser feito. Com efeito, muitos têm a ciência, mas poucos são os que sabem de que modo convém exercê-la.
De outra maneira, visto que o conselho humano, sem o auxílio divino, é débil e ineficaz, eleva-te à oração e pede a ajuda de Deus, sem a qual nada podes fazer de bom, a fim de que a sua graça, que antecipadamente já te iluminou, conduza também teus passos pelo caminho da paz, e te leve a consumar em boas obras o que antes estava somente na vontade.
Depois, resta a ti que te revistas da boa ação, para que o que pedes orando mereças receber agindo. Deus quer operar contigo, não para te obrigar, mas para te ajudar. Se operas sozinho, nada consegues; Se somente Deus opera, nada mereces. Opere, então, Deus, para que te seja possível conseguir alguma coisa; e operes também tu, para que a mereças. A boa ação é o caminho pelo qual se conduz à vida. Quem percorre este caminho busca a vida. "Tem coragem e age virilmente",² este caminho tem seu prêmio. Quantas vezes estamos fatigados dos fardos deste caminho e somos iluminados pela graça que do alto nos guarda, "provando e vendo quão suave é o Senhor".³ E assim se cumpre o que foi dito acima: o que a oração busca, a contemplação encontra.
Vês, pois, de que modo a perfeição vai ao encontro dos que ascendem por estes degraus, de tal maneira que quem não os sobe não pode ser perfeito.
O nosso propósito deve ser sempre ascender; porém, visto que é grande a inconstância de nossa vida, de tal modo que não conseguimos permanecer no mesmo degrau, somos freqüentemente impelidos a retornar aos degraus já superados, e, para não perdermos o que já conquistamos, refazemos algumas vezes o caminho pelo qual já havíamos passado. Por exemplo: quem está firme no degrau da ação, reza para não cair; quem está persistente na oração para que não cometa enganos rezando, medita sobre o que deve rezar; e quem, às vezes, desconfia do próprio conselho, recorre novamente à leitura. E é assim que acontece: ainda que nossa vontade seja sempre ascender, às vezes, entretanto, a necessidade nos obriga a descender, mas de tal modo que nosso propósito consista em nossa vontade, e não na necessidade. Nosso propósito é. ascendermos, e por causa dele é que, às vezes, descendemos. Portanto, o fundamental não é descender, mas ascender.*
¹ Sl 19, 12.
² Js 1,18.
³ Sl 34, 9.
¹ Sl 19, 12.
² Js 1,18.
³ Sl 34, 9.
* "Há, portanto, um tempo para estudar e há um tempo para meditar. Há um tempo para investigar a verdade para que se enriqueça o entendimento, há um tempo para exercitar a virtude para sanar os nossos afetos, e há também um tempo para praticar a boa obra para que se auxilie o próximo. Há um tempo para orar e um tempo para cantar, há um tempo para assistir ao Ofício Divino e um tempo para dedicarmos a qualquer outra coisa necessária. De todas estas coisas, como uma abelha que retira o seu mel de flores diversas, devemos colher para nós a doçura de uma suavidade interior, para que possamos consumar, através de uma vida santa, o favo de uma melíflua justiça" (Hugo de Sao Vítor, Prólogo do Sermones Centum).
Didascalicon: Sobre a arte de ler - Hugo de São Vítor
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