sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Vaidade e Preguiça

Do mesmo modo, os dias de guarda exigem zelo e comportamento diferentes daqueles requeridos nos dias em que é licito trabalhar. Nos dias de guarda, devemos nos reunir mais zelosa e espirituosamente na igreja e nos dispor mais devotamente para celebrar mistérios divinos; devemos perseverar por mais tempo na oração e demonstrar nas vestes, no caminhar e no agir maior devoção para com o culto divino; não devemos fazer nada que não seja santo, que não seja divino e que não nos seja ordenado; devemos afastar a língua de conversas vazias e os pés das idas e vindas; devemos fechar os olhos, inclinar o rosto, elevar a mente e entregar todo ato e todo movimento do coração e do corpo ao serviço divino; devemos, enfim (por assim dizer), honrar os dias santos com espírito sempre renovado.
Nos outros dias, em que é lícito trabalhar, ninguém fique ocioso; cada um deve, segundo suas forças e conhecimentos, aplicar-se àquele trabalho que lhe tiver sido imposto, e não que ele próprio escolheu. Quanto de beleza o repouso dá aos dias de guarda, tanto de ornamento o esforço do trabalho confere aos dias restantes. Desta forma, todo aquele que não quis repousar nos dias de guarda seja juiz de sua vaidade, e aquele que não foi esforçado nos dias de trabalho seja testemunha de sua preguiça. Assim se dá com as mentes carnais: nos dias de descanso a vaidade as incita a não descansar, e nos dias de trabalho a preguiça as impede de trabalhar bem.
Por isso, para agir bem deve haver um cuidadoso discernimento dos tempos, para que, assim como as obras más em tempo algum são louváveis, as boas obras não sejam dignas de repreensão por não terem sido praticadas o tempo oportuno.


A Instrução dos Principiantes - Hugo de São Vítor

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