Capítulo III
Sobre também as coisas terem um significado na Sagrada Escritura
Também é necessário saber que, no discurso divino, não só as palavras, mas também as coisas têm significados, de um modo que não se costuma encontrar com freqüência em outros escritos.¹ O filósofo conhece somente o significado da palavra, mas o significado das coisas é muito mais superior do que o das palavras, pois o significado destas foi instituído pelo uso, enquanto o daquelas foi fornecido pela natureza. O significado das palavras é voz do homem, o das coisas é a voz de Deus aos homens.² As palavras, depois de pronunciadas, perecem; as coisas, depois de criadas, subsistem. A voz, frágil, é a expressão dos sentidos; a coisa é imagem da razão divina. Portanto, o que o som emitido pela boca, som que cessa ao mesmo tempo em que se expressa, é para a idéia mental, toda duração temporal é para a eternidade. A idéia mental é o verbo interior que se expressa pelo som da voz, isto é, o verbo exterior. E assim, a divina Sabedoria, que o Pai fez brotar de seu coração e que em si mesma é invisível, pelas criaturas e nas criaturas é que se dá a conhecer.³
A partir disso, fica claro o quão profundo deve ser o conhecimento extraído da Sagrada Escritura, na qual pela palavra se chega ao intelecto, pelo intelecto à coisa, pela coisa à idéia, e pela idéia à verdade. Por não levarem isto em conta, algumas pessoas pouco sábias julgam não haver sutileza alguma na Sagrada Escritura na qual possam exercer o seu engenho, e por isso voltam-se aos escritos dos filósofos, pois não concebem que nela esteja expressa alguma coisa a não ser unicamente a superfície do sentido literal, ignorando, assim, o poder da verdade.
Através de um breve e claro exemplo demonstraremos como o discurso sagrado se utiliza do significado das coisas. Diz a Escritura: "Vigiai, pois vosso inimigo, o Diabo, que como um leão rugindo ronda em torno de vós".* Aqui, se dizemos que o leão significa o Diabo, devemos compreender a coisa em si e não a palavra que a designa. Se estas duas palavras, isto é, "Diabo" e "leão", significassem a mesma coisa, seria inútil a semelhança de uma coisa com ela mesma. Segue-se, então, que esta palavra, "leão", significa o animal, e que este animal designa o Diabo. E todas as outras coisas devem ser entendidas do mesmo modo, como quando dizemos que o verme, o bezerro, a pedra, a serpente e outras coisas semelhantes significam o Cristo.
¹ Hugo de São Vitor, comentando o trecho (Hb 4, 12) em que São Paulo faz a distinção entre a palavra de Deus e a dos homens, escreve: "'A palavra de Deus é viva', porque não muda Eficaz, porque não falha. Penetrante, porque não se engana. Não muda no que promete, não falha no que realiza, não se engana no julgamento" (A Palavra de Deus, disponível em cristianismo.org.br/h-verb.htm).
Didascalicon: Sobre a Arte de Ler - Hugo de São Vítor
¹ Hugo de São Vitor, comentando o trecho (Hb 4, 12) em que São Paulo faz a distinção entre a palavra de Deus e a dos homens, escreve: "'A palavra de Deus é viva', porque não muda Eficaz, porque não falha. Penetrante, porque não se engana. Não muda no que promete, não falha no que realiza, não se engana no julgamento" (A Palavra de Deus, disponível em cristianismo.org.br/h-verb.htm).
² "'Toda criatura possui uma causa e uma imagem na razão de Deus e em sua providência eterna; e é por esta causa e sobre o modelo desta imagem que ela foi criada em sua substância' (Hugo de São Vítor, De Sacramentis) [...] a criação é, portanto, a manifestação do pensamento e da sabedoria de Deus, assim como a palavra é a manifestação do pensamento e da sabedoria do homem" (Princípios fundamentais de pedagogia, disponível em cristianismo.org.br/pfp-01.htm).
³ "O Verbo de bondade e a vida de sabedoria que fez o mundo se manifesta na contemplação da criação. O Verbo em si mesmo era invisível, mas se fez visível, e foi visto pelas suas obras. [...] O mundo é, de fato, um livro escrito pelo próprio dedo de Deus. Cada criatura é como um sinal, não por convenção humana, mas estabelecido pela vontade divina. O homem ignorante vê um livro aberto, percebe certos sinais, mas não conhece nem as letras nem o pensamento que elas manifestam. Assim também o insensato, o homem animal que não percebe as coisas de Deus, vê a forma exterior das criaturas visíveis, mas não compreende os pensamentos que elas manifestam. Assim como em uma única e mesma obra um homem admira a cor e a forma das letras, enquanto outro louva os pensamentos que elas expressam. É bom, portanto, contemplar assiduamente e admirar as obras de Deus, mas para aquele que souber converter a beleza das coisas corporais em uso espiritual" (Hugo de São Vítor, Tratado dos três dias, disponível em cristianismo.org.br/pfp05-b.htm)
³ "O Verbo de bondade e a vida de sabedoria que fez o mundo se manifesta na contemplação da criação. O Verbo em si mesmo era invisível, mas se fez visível, e foi visto pelas suas obras. [...] O mundo é, de fato, um livro escrito pelo próprio dedo de Deus. Cada criatura é como um sinal, não por convenção humana, mas estabelecido pela vontade divina. O homem ignorante vê um livro aberto, percebe certos sinais, mas não conhece nem as letras nem o pensamento que elas manifestam. Assim também o insensato, o homem animal que não percebe as coisas de Deus, vê a forma exterior das criaturas visíveis, mas não compreende os pensamentos que elas manifestam. Assim como em uma única e mesma obra um homem admira a cor e a forma das letras, enquanto outro louva os pensamentos que elas expressam. É bom, portanto, contemplar assiduamente e admirar as obras de Deus, mas para aquele que souber converter a beleza das coisas corporais em uso espiritual" (Hugo de São Vítor, Tratado dos três dias, disponível em cristianismo.org.br/pfp05-b.htm)
* I Pe 5, 8.
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