quarta-feira, 17 de julho de 2019

Estado e Classe

É justamente desta visão¹ do processo político que o radical pretende se esquivar. Visto que nada que não seja a revolução (a morte do Estado) pode satisfazê-lo, toda e qualquer mudança constitucional precisa ser descartada ab initio. E também é preciso deixar claro desde o começo que nenhuma mudança no repertório da burguesia é capaz de satisfazer suas exigências. É por estas razões que o radical direciona o seu ressentimento não para o Estado, mas para a classe que é supostamente representada por ele, e acredita que todas as grandes batalhas ocorrem entre as classes. (Este é o motivo verdadeiro pelo qual ele descreve os Estados ocidentais como "capitalistas" . Não importa que eles tenham, como Espanha e França, governos socialistas; tudo isso é muito superficial para ser percebido pelo ponto de vista radical - que enxerga apenas as profundezas inacessíveis aos iludidos). Pondo isto em prática, o radical não precisa se dar o trabalho de se relacionar com seus opositores, e concede-se o direito de rejeitar qualquer mudança ou compromisso que lhe seja oferecido. Por isso, quando as instituições de ensino " burguês" produziram suas visões esclarecidas e "universalistas " do homem, contrastando-as com o "racismo" de que a sociedade burguesa tinha com tanta frequência sido acusada, os radicais antirracistas não puderam perceber esta mudança como uma virtude. Afinal, é uma demonstração de que os corações burgueses podem mudar, mas os burgueses não podem ter corações:

O Universalismo foi oferecido ao mundo como um presente do poderoso ao fraco. Timeo Danaos et dona ferentes! [sic] O presente em si mesmo abrigava racismo, pois ele dava ao que o recebia duas escolhas: aceitar o presente, assim reconhecendo que alguém estava abaixo na hierarquia de sabedoria adquirida; ou recusar o presente, assim negando a si mesmo as armas que poderiam reverter a desigual situação de poder real.

Em outras palavras, não importa o que mude no Estado, as intenções da classe dominante permanecem inalteradas. A conclusão acertada que decorre desta mudança não é esta, mas uma que os radicais não conseguem admitir. A conclusão correta é que a classe dominante não é, no fim das contas, idêntica ao Estado: ela é diferente da personalidade jurídica que se pode culpar, e, nesse caso, o ressentimento pode ser razoavelmente aplicável. A classe dominante é revelada, nesse implacável ódio radical, pelo que ela é: uma força material que não faz sentido condenar ou louvar, um fato econômico a ser avaliado não por aquilo que ele faz (porque ele não faz nada), mas por aquilo que ele faz acontecer. Sendo assim, apesar da necessidade radical em personificar a classe, também se lhe exige preservar no cerne de seu pensamento a imagem da classe como algo essencialmente impessoal, além da esfera do julgamento moral. A contradição (que existe de forma análoga no pensamento sobre o "racismo") só pode ser evitada se houver o reconhecimento da diferença fundamental entre classe e Estado. Só que reconhecê-la, e atribuir-lhe o significado moral que ela demanda, é derrubar as bases do terceiro-mundismo. Se mesmo diante de tudo isso continuamos culpando os Estados ocidentais - qualquer que seja a casuística - pelo empobrecimento do bom selvagem, não podemos culpá-los por conta de seu "capitalismo", por conta disto que não pertence ao âmbito superficial da tomada de decisão política, mas apenas à estrutura "profunda " que está além do louvor e da culpa.

Podemos lamentar a confusão intelectual manifesta nesta contradição. No entanto, seu efeito moral é muito mais grave. Ela encoraja o radical a direcionar seu ódio àquilo que não possui nem vontade nem racionalidade. Motiva-o a se engajar não com o mundo real das negociações políticas e da tomada de compromisso, mas com o mundo ilusório e "profundo" das forças intransigentes, em que luz e trevas lutam por uma ascendência metafísica que não pode ser atingida por mera vontade humana. Este pensamento maniqueísta destrói no radical tanto o espírito de comprometimento em si quanto a habilidade de perceber o compromisso como um valor político. Deixa-o pronto para aceitar como sua forma predileta de política - uma que só pode ser "superficialmente" diferente daquela contra a qual ele se revolta-os procedimentos do governo totalitário, dos quais o compromisso, os ajustes, o criticismo e a reforma foram finalmente eliminados por uma mudança "irreversível".


Pensadores da Nova Esquerda - Roger Scruton


¹ “o objeto do ódio radical seja primordialmente identificado como uma classe, e não como um Estado”


Publicado no Facebook em 7 de Julho, 2017

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