Como foi possível chegar a esse ponto? Quais as causas e os agentes que se encontram por trás desse fenômeno, que diferencia radicalmente o mundo atual de todas as civilizações precedentes?
A resposta é decepcionantemente simples e pavloviana: o homem moderno foi submetido a uma dose de estimulação contraditória superior a tudo quanto seus antepassados poderiam sequer imaginar; ele já passou da fase ultraparadoxal, todas as suas cadeias de reflexos foram invertidas ou pervertidas, e agora ele só crê naquilo que seja flagrantemente contrário às evidências. Um campo fértil para os abusos da estimulação paradoxal é a propaganda. Os slogans, as figuras, os jingles e logotipos da propaganda povoam a imaginação do homem de hoje exatamente como outrora os anjos, demônios, heróis e duendes do imaginário tradicional. Eles formam o vocabulário básico no qual o habitante das grandes cidades expressa seus desejos, aspirações e temores. O homo urbanus está preso no círculo da linguagem publicitária, já que sua imaginação não tem outra fonte para buscar inspiração e modelos de conduta além das comunicações de massa. Assim, ao mesmo tempo que distingue conscientemente entre propaganda e verdade, sabendo que a propaganda é um universo de enganos, ele não pode deixar de se guiar por ela na prática, de vez que a inteligência não pode por em movimento a vontade senão por intermédio da imaginação e que sua imaginação não tem outros conteúdos senão os que nela foram inoculados pela propaganda. Daí que ele aja continuamente contra aquilo que sabe. Ele sabe por exemplo que dirigir em alta velocidade é uma imprudência estúpida, mas não tem outro modelo do homem forte que deseja ser senão o de Ayrton Senna. Ele sabe que os cigarros de baixos teores de nicotina podem ser perigosamente radioativos, mas sua imaginação — pelo efeito conjugado da campanha contra a nicotina e da propaganda de cigarros — associou a eles um sentimento de higiene e segurança perfeitamente imbecil. A ruptura entre conduta e crença, inócua em casos isolados, ao generalizar-se para todos os setores e momentos da vida provoca uma angústia insuportável, que tem de ser reprimida a todo custo. Mas reprimir essa angústia é abdicar, no ato, de todo senso profundo da realidade, é condenar-se a um vaivém incessante entre a fantasia desesperançada e o desesperançado cinismo. Levado a agir como se acreditasse naquilo que nega, o homem das grandes cidades é hoje um esquizóide, que só pode acreditar na realidade quando ela não tem sentido e só pode enxergar um sentido na negação da realidade. Boa parte do que hoje se chama cultura é apenas a reprodução elaborada e pedante desse estado de espírito.
O Jardim das Aflições - De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil - Olavo de Carvalho
Publicado no Facebook em 2 de Setembro, 2017
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