Existe um instinto natural em pessoas que não refletem - as quais, ao tolerar os fardos que a vida lhes oferece e sem querer deixar a culpa onde elas não veem solução, buscam realização no mundo como ele é. Esse instinto é o de aceitar e apoiar, por meio de seus atos, as instituições e as práticas nas quais elas nasceram. Esse instinto, que tentei traduzir na linguagem autoconsciente da doutrina política, está enraizado na natureza humana; e, ao elaborar seus fundamentos, eu também estou sugerindo uma filosofia especulativa do homem. Essa filosofia distingue das atividades dos animais o comportamento peculiar que reconhecemos como humano: o comportamento de uma criatura que não tem somente instintos, desejos e necessidades, mas também valores; que existe não somente no presente, mas ainda no passado e no futuro; que não apenas se submete à realidade, mas que também faz de si parte dela e imprime no mundo a marca de sua vontade.
Agora, porém, a tarefa encontra um obstáculo. Defender o preconceito não refletido de uma pessoa ativa e normal era fácil em uma época em que preconceitos derivavam diretamente dos dogmas da religião recebida, ou quando a continuidade social garantia que aqueles que ascendiam para a autoconsciência ainda assim se afastavam apenas nas questões menores dos mortais mais felizes, que eram determinados a nunca questionar o que sabiam. Agora, entretanto, nós nos encontramos confrontados com esta entidade monstruosa, o homem moderno, a pessoa para quem qualquer conexão com uma ordem maior do que si mesmo tem que ser alcançada pelo próprio esforço, e que procura por essa ordem não necessariamente naquilo que existe ou existiu, mas mais frequentemente no que será ou poderá ser. Seu desejo inquieto de livrar-se do aqui e agora não é insuflado por nenhuma fé religiosa nem por nenhuma crença na imperfeição necessária das coisas mortais. Seu impulso transcendental se traduz em uma nostalgia que tudo consome, uma nostalgia não pelo passado, mas por um futuro que - como o paraíso - só pode ser descrito negativamente.
O que é Conservadorismo - Roger Scruton
Publicado no Facebook em 6 de Março, 2017
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