segunda-feira, 15 de julho de 2019

Tempo e Cultura

O que perdura no tempo não é a sociocultura, documental e antropológica, mas os produtos superiores, de alcance universal. Da China antiga, conservam-se o I Ching e o taoismo, não os ritos de fertilidade e as festas populares. Da Grécia conservam-se a poesia e a filosofia, não os usos e costumes. Do mesmo modo, compare-se a durabilidade sempre idêntica dos ritos judaicos à variedade dos costumes locais e das crenças políticas que os judeus foram adotando e abandonando nas terras por que passavam. Do Brasil há de conservar-se não aquilo que faça “referência” à nossa identidade presente, mas aquilo que, do nosso presente e do nosso passado, tenha para os homens do futuro o valor de uma mensagem salvadora, de um sinal do sentido da vida e da força com que a inteligência humana salta por cima das condições locais e se integra na compreensão do universo total. Se queremos que os outros se interessem por nós, devemos antes de tudo nos interessar por eles. O homem de hoje, salvo dever profissional ou interesse erudito, não lê o I Ching para conhecer a China antiga, mas para conhecer-se a si mesmo. Ninguém estuda Platão e Aristóteles por mera curiosidade histórica, mas porque neles encontra guiamento, ajuda, sabedoria. Se queremos saber o que do Brasil sobreviverá, devemos perguntar-nos o que, nele, tem valor supratemporal, o que, nele, não fala de nós, mas fala aos homens do futuro sobre algo que para eles seja de importância vital. Uma cultura sobrevive por aquilo que dá aos homens do futuro, não por aquilo que guarda, narcisisticamente, da sua própria imagem.


O Futuro do Pensamento Brasileiro - Olavo de Carvalho


Publicado no Facebook em 3 de Maio, 2017

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