segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Tempo e Conservação

Afirmamos que uma das razões oferecidas para ser um progressista é que as coisas naturalmente tendem a melhorar. Mas a única razão para se ser um progressista é que as coisas tendem naturalmente a piorar. A corrupção não é somente o único argumento para ser progressista; é também o único argumento contra ser conservador. A teoria conservadora seria realmente dramática e irrespondível se não fosse por esse fato. Mas todo o conservadorismo é baseado na ideia de que se deixarmos as coisas sozinhas elas permanecem o que são. Mas as coisas não se passam assim. Se deixarmos algo sozinho o abandonamos a uma torrente de mudança. Se deixarmos um poste branco sozinho, logo ele será um poste negro. Se se deseja que ele seja branco, é preciso sempre pintá-lo novamente; isto é, uma revolução é sempre necessária. Em suma, se se deseja o antigo poste branco é preciso um novo poste branco. Mas isso que é verdadeiro até mesmo das coisas inanimadas é, em um sentido muito especial e terrível, verdadeiro para todas as coisas humanas. Uma vigilância quase antinatural é realmente exigida do cidadão devido à horrível rapidez com que as instituições humanas envelhecem. É costume no romance e no jornalismo ligeiro falar dos homens que sofrem sob as antigas tiranias. Mas, de fato, os homens quase sempre sofreram sob novas tiranias; sob tiranias que tinham defendido as liberdades públicas há menos de vinte anos. Foi assim que a Inglaterra se encheu de júbilo sobre a monarquia patriótica de Elizabete (I 1533-1603); e então, quase que imediatamente após o júbilo, caiu cheia de fúria na armadilha tirânica do primeiro Carlos (I 1600-1649). Da mesma forma, na França a monarquia se tornou intolerável, não simplesmente depois de ter sido tolerada, mas logo após ter sido adorada. O neto de Luís, o amado (XV 1710-1774), se tornou Luís, o guilhotinado (XVI 1754-1793). Na Inglaterra do século XIX, o industrial radical recebeu a inteira confiança como um simples tribuno do povo, até que subitamente ouvimos o brado socialista de que era um tirano a devorar o povo como pão. Nós também confiamos até o último instante nos jornais como órgão da opinião pública. E só muito recentemente alguns de nós viram - não lentamente, mas como um súbito esclarecimento - que obviamente não são nada disso. São por natureza, os hobbies de alguns poucos bilionários. Não temos a menor necessidade de nos rebelar contra a antiguidade; a rebelião deve se erguer contra a novidade. São os novos reis, o capitalista ou o editor, que realmente atrasam o mundo moderno. Não há o menor temor de que um rei moderno irá se sobrepor à constituição; é bem mais possível que ele a ignore e trabalhe nos bastidores contra ela; ele não irá se aproveitar de seu poder real, mas sim, ao contrário, de sua impotência real, do fato de estar livre da crítica e da publicidade. Pois esse novo rei é a figura mais privada de nosso tempo. Não será necessário que alguém lute contra a proposta de censura da imprensa. Não precisamos da censura da imprensa, pois já temos a censura pela imprensa.


Ortodoxia - G. K. Chesterton

Publicado no Facebook em 27 de Março, 2019

Nenhum comentário:

Postar um comentário