Pois se este livro é uma piada, o feitiço se volta contra o feiticeiro. Sou eu o homem que com a mais completa ousadia descobriu o que já fora descoberto. Se há um elemento farsesco no que segue, a farsa deverá ser debitada de minha conta; pois este livro explica como tive o devaneio de ser o primeiro homem a colocar os pés em Brighton, somente para depois descobrir que fui o último; narra minhas pantagruélicas aventuras em busca do óbvio. Ninguém pode considerá-las mais patéticas do que eu; nenhum leitor pode acusar-me de tentar fazê-lo de tolo; sou eu o bobo da corte da estória, e nenhum rebelde poderá me tirar desse trono. Confesso livremente todas as ambições idiotas do fim do século XIX. Tentei, como todos os outros rapazotes solenes, estar à frente do meu tempo. Como eles, tentei estar alguns minutos adiante da verdade. E descobri que estava mil e oitocentos anos atrasado; afetei uma voz de exagero dolorosamente juvenil ao proferir minhas verdades, e fui punido da forma mais justa e irônica, pois mantive minhas verdades: só que descobri, não que não eram verdades, mas que simplesmente não eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho, na verdade encontrava-me na ridícula posição de ser sustentado por toda a Cristandade. Pode ser, e os céus me perdoem por isto, que tenha de fato tentado ser original; mas só consegui inventar uma cópia inferior das tradições já existentes da religião civilizada. O homem do iate pensou que era o primeiro a descobrir a Inglaterra; eu pensei que era o primeiro a descobrir a Europa; Tentei realmente fundar a minha própria heresia; e quando tinha dado os últimos retoques a essa obra, descobri que era a ortodoxia.
Ortodoxia – G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 22 de Março, 2019
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