quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Loucura e Percepção

É verdade que alguns falam de forma leviana e vaga da insanidade como se fosse algo em si mesmo atraente. Mas um breve raciocínio mostrará que se a doença é bela, geralmente trata-se da doença alheia. Um homem cego pode ser pitoresco, mas dois olhos são necessários para ver a pintura. Da mesma forma, até mesmo a mais selvagem poesia de um louco só pode ser apreciada pelo homem são. Para o louco sua insanidade é bem prosaica, porque é bem verdadeira. Um homem que acredita ser uma galinha se enxerga como algo tão ordinário quanto uma galinha. Aquele que acredita ser um pedaço de vidro é para si mesmo tão pouco atraente quanto um pedaço de vidro. É a homogeneidade da mente que o torna ao mesmo tempo tedioso e louco. É somente porque enxergamos a ironia dessa ideia que o consideramos interessante; e é somente porque ele não vê a ironia de sua ideia que está em Hanwell. Em resumo, esquisitices só impressionam pessoas comuns. Esquisitices nunca impressionam pessoas esquisitas. É por isso que pessoas comuns podem se divertir tanto, enquanto os esquisitos estão sempre reclamando do tédio da vida. Também é por isso que os novos romances são esquecidos tão rapidamente, e os antigos contos de fadas duram pra sempre. Os antigos contos de fadas fazem do herói um rapaz comum, pois são suas aventuras que são surpreendentes, e elas surpreendem porque ele é comum. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Dessa forma, as mais ferozes aventuras nunca o afetam adequadamente, e o livro é monótono. É possível criar a estória de um herói entre dragões; mas não de dragões entre dragões. O conto de fadas discute o que um homem são fará em um mundo louco. A novela realista e sóbria dos dias atuais discute o que alguém essencialmente lunático irá fazer em um mundo tedioso.


Ortodoxia - G. K. Chesterton

Publicado no Facebook em 25 de Março, 2019

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