terça-feira, 3 de setembro de 2019

Indignação e Moral

“Combater as injustiças” parece ser de fato a mais elevada conduta ética que se concebe nesta parte do mundo. O estado normal do homem ético, segundo essa perspectiva, é a indignação; sua arma, a denúncia. Mas não tem sentido mover combate a um mal ou denunciá-lo quando se tem o poder de impedir que se realize. Excetuando-se a improvável hipótese de uma antevisão profética das más intenções ocultas, só é possível denunciar injustiças depois de cometidas. E como um homem, sendo senhor de seus atos, tem sempre o poder de se abster de cometer injustiças, segue-se a conclusão fatal: uma ética que enfatize acima de tudo o combate e a denúncia é uma ética que induz cada indivíduo antes a fiscalizar os outros do que a dominar-se a si mesmo. É uma antiética, que, adotada em escala nacional, terá como resultado transformar o povo brasileiro numa horda de irresponsáveis indignados. Indignados com os outros e perfeitamente satisfeitos consigo mesmos, na tranquilidade da falsa consciência que, ao denunciar, acredita ter cumprido o seu máximo dever. Uma ética de espiões e fofoqueiros, maliciosos até a medula e totalmente destituídos de autoconsciência crítica. Uma ética de bandidos, pois o suprassumo da indignação moral é a do quadrilheiro traído por seus sequazes.

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E mesmo na remotíssima eventualidade de que se chegue a punir um bom número de calhordas, resta perguntar se esse resultado vale o efeito psicológico perverso que tudo isso produz na mente do povo, deseducando-o para a prática da autoconsciência e substituindo-a por esse Ersatz de moralidade que é o espírito de denúncia.

Pois a moral, quando o é de fato e não um mero sistema de pretextos, consiste primariamente, essencialmente, fundamentalmente num sistema de normas para que cada qual regre sua própria conduta, e só secundariamente, acidentalmente e por exceção, numa tábua de critérios para julgar a conduta alheia. Proceder corretamente, abster-se do mal, é por definição um dever de todos, um dever absoluto e incondicional. Desse dever decorre a obrigação de cada qual se dominar a si mesmo, sondar e julgar severamente suas próprias intenções antes de tomá-las dogmaticamente como boas e, investido da convicção da própria pureza, sair berrando contra as injustiças alheias. Denunciar quem age errado é um ato fundamentalmente ambíguo, que só se torna bom em determinadas circunstâncias especiais e que, no mais das vezes, deve ser evitado. O desprezo universal do senso comum aos alcaguetes e delatores pode tornar-se um preconceito obstrutivo naquelas situações excepcionais em que o silêncio é crime. Mas, em regra geral, ele expressa uma profunda verdade moral e psicológica, que não pode ser desarraigada da alma popular sem que isto desencadeie temíveis consequências, entre as quais a de agravar o estado de confusão moral e de anomia que é uma das causas manifestas da criminalidade crescente. Se é talvez admissível apelar para a alcaguetagem generalizada em casos extremos como o da epidemia de sequestros, é no entanto um erro e uma perversidade colocar a denúncia e a acusação no centro e no topo da conduta moral. Inverter as proporções de uma sã moralidade, transformando a exceção em regra máxima e dando incentivo a uma hipocrisia enragée que alimenta o mal sob o pretexto de combatê-lo, é um desastrado casuísmo psicológico pelo qual os próceres da nossa campanha moralizante terão de prestar contas ante o tribunal das consequências históricas, algumas das quais já estão bem à nossa vista.


O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho

Publicado no Facebook em 13 de Agosto, 2018




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