segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Culpa e Responsabilidade

Ao enfocar o segundo aspecto da tríade trágica*, a saber, a culpa, gostaria de partir de um conceito teológico que para mim sempre foi fascinante. Refiro-me ao chamado mysterium iniquitatis, que significa, segundo minha visão, que em última análise um crime permanece inexplicável na medida em que não pode ser completamente investigado em suas origens biológicas, psicológicas e/ou sociológicas. Explicar totalmente o crime de alguém seria o mesmo que eliminar sua culpa e vê-lo não como uma pessoa livre e responsável, mas como uma máquina a ser consertada. Até os próprios criminosos detestam esse tratamento e preferem ser considerados responsáveis pelo que fizeram. Um preso cumprindo sua sentença numa penitenciária de Illinois mandou-me uma carta na qual lamentava que "o criminoso nunca tem uma chance de se explicar. Ele recebe uma variedade de desculpas entre as quais pode escolher. A sociedade é acusada, e, em muitos casos, a acusação é feita contra a vítima". Além disso, quando falei aos presos em San Quentin, disse a eles: "Vocês são seres humanos como eu, e como tais tiveram a liberdade de cometer um crime, de tornar-se culpados. Agora, no entanto, vocês têm a responsabilidade de superar a culpa erguendo-se acima dela, crescendo para além de vocês mesmos e mudando pessoalmente para melhor". Eles se sentiram compreendidos. E Frank E. W., ex-preso, mandou-me um bilhete dizendo que havia começado um grupo de logoterapia para ex-criminosos. "Somos 27, e os mais novos estão permanecendo fora da prisão através da força solidária do grupo inicial. Só um voltou - e agora já está livre".

Quanto ao conceito de culpa coletiva, penso pessoalmente que é totalmente injustificado responsabilizar uma pessoa pelo comportamento de outra ou de um grupo de pessoas. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, não canso de argumentar publicamente contra o conceito de culpa coletiva. Às vezes, no entanto, é necessária uma boa quantidade de truques didáticos para afastar as pessoas das suas superstições. Uma mulher norte-americana, uma vez, me lançou uma crítica: "Como é que você consegue escrever livros em alemão, se é a língua de Adolf Hitler?". Em resposta, perguntei a ela se usava facas em sua cozinha. Quando respondeu que sim, mostrei-me espantado e chocado, e exclamei: "Como é que você consegue usar facas se tantos assassinos já as usaram para apunhalar e matar suas vítimas?". Então ela desistiu de me criticar por escrever livros em alemão.


Em Busca de Sentido - Viktor E. Frankl

* Dor, culpa e morte.


Publicado no Facebook em 9 de Novembro, 2018

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