FOME
Face ao estado de extrema subnutrição em que se encontravam os prisioneiros, é compreensível que, entre os instintos primitivos que representam a "regressão" da vida psicológica no campo, o instinto de alimentação ocupasse o lugar principal. Observemos os prisioneiros de um modo geral quando estão juntos no lugar de trabalho, num momento em que não estão sendo tão rigorosamente vigiados. A primeira coisa de que começam a falar é comida. Imediatamente alguém começará por perguntar ao colega que trabalha a seu lado na vala qual seu prato favorito. Começam a trocar receitas e compor menus para o dia em que pretendem convidar-se mutuamente para um reencontro, futuramente, depois de libertos e de volta em casa. Esse assunto fascina-os tanto, que não conseguem largá-lo antes do convencionado sinal de aviso, geralmente dissimulado pela menção de um número, por exemplo, alertando os que estão na vala da chegada do guarda.
Eu pessoalmente sempre tive minhas reservas com relação a essa conversa constante, quase obsessiva, sobre comida (no campo costumava-se chamá-la de "onanismo estomacal"). Não se deve provocar o organismo com essas imagens de iguarias, muito intensas e carregadas de sentimento, quando ele já conseguiu, em termos, adaptar-se de alguma maneira às reduzidíssimas rações e quantidades de calorias. O alívio psíquico é produzido por ilusões que certamente podem ser perigosas na área fisiológica.
Em Busca de Sentido - Viktor E. Frankl
Publicado no Facebook em 9 de Novembro, 2018
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