terça-feira, 1 de outubro de 2019

Fim e Sentido

"Só queria acabar com o sofrimento e a angústia de ter uma existência medíocre e sem sentido.

E, adivinhe, existe outro modo!

Se tornar alguém mais forte e dar um sentido para vida.

Aliás, essa é a única tarefa a qual ninguém consegue fugir. Você recebe uma vida e precisa escolher o que fazer com ela.

E isso não é fácil. Aposto que você sabe."

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Texto original na íntegra: http://teoriadokrawlz.com.br/?p=69


março 27, 2019

O SEGREDO PARA PARAR O TEMPO.


“They lied to us, Bill! It’s water.”


Sabe como é, bate e volta, você vai até o litoral, aproveita o dia e retorna no final dele.

Eu poderia não ter voltado.

O dia estava sensacional. Sol e calor. Muitas pessoas na beira da praia. Tomando Sol. Comendo e bebendo. Jogando lixo em lugares inapropriados. Várias escolhas de roupa de banho de gosto duvidoso. Um incrível número de culotes. Sungas brancas.

Um grupo de terraplanistas em férias observando o horizonte e comparando o planeta com os limões que usavam para fazer suas caipirinhas. Concluíram que, definitivamente, fazia muito mais sentido que a terra fosse como uma rodela de limão e não o limão inteiro e a única dúvida é se as pessoas seriam mais felizes se o mar fosse feito de vodka ou cachaça.

Eu estava lá, tomando algumas cervejas de garrafas verdes e usando uma bermuda que era grande demais para mim, nitidamente.

Não era a melhor época da minha vida. Eu estar participando de um bate e volta até a praia é um grande sinal de que o mundo poderia desmoronar a qualquer momento. Não morro de amores por praia e, além disso, a expressão em si “bate e volta” já me causa um pouco de desconforto.

Quando escuto alguém dizer “vamos fazer um bate e volta”, imediatamente sinto cheiro de vodka e arrependimento. “Hey! Pessoal, vamos fugir da realidade? Não temos recursos para ficar muito tempo, mas ao menos sairemos da nossa rotina miserável, afogaremos nossas frustrações em álcool e teremos vários dias depois para nos arrependermos de ter gasto o que não deveríamos com futilidades. Mas hey! YOLO! Só se vive uma vez. Vamo dale!”

Você bate com a cara na parede e volta para a realidade, com dor de cabeça.

Tenho quase certeza que neste dia deveria estar no trabalho. Era vendedor na época, em um shopping. Um péssimo vendedor. Foi uma época que decidi que deveria fazer as coisas como todo mundo faz ao invés de fazer o que eu acreditava. Afinal de contas, quem eu era pra questionar o sistema? Um sonhador fracassado. Uma falha da Matrix.

Mas tudo bem. Eu estava lá, então melhor aproveitar. Vamos pro mar que ele cura todos os males.

Estava ótimo. Refrescante. Divertido. Relaxante. As ondas batendo e passando, levando meu mau humor embora. As risadas e brincadeiras com os amigos fazendo efeito. É impressionante o poder do mar. Gigante. Banhando a terra. Embalando com suas ondas aqueles que se aventuram nas suas entranhas. Reanimando. Lavando as preocupações. Levando elas embora.

Eu estava mais relaxado e alegre. Todo mundo conhece a sensação da irresponsabilidade, é ótima.

Uma onda mais. Eu fecho meus olhos e vou no ritmo dela. Deixo ela me levar. Subindo. Abro os olhos e vejo a praia. Descendo. Descendo demais. Meus pés não tocam no chão, pelo menos não antes da minha cabeça ficar quase coberta. Eu piso, pego um impulso e subo novamente. Desço. Dessa vez afundo um pouco mais.

Eu já contei para você que não sei nadar?

Não sei. Nunca aprendi. Nunca gostei de mar. Uma das razões de não gostar é culpa dos meus pais. Quando era jovem, toda vez que entrava no mar, eles ficavam gritando “Volta pra cá! Tá muito longe! Sai dai! Volta! O mar vai te levar, praguedo!” E me ameaçando dizendo que iriamos embora se eu não parasse de ficar “indo longe”.

O que seria muito compreensível se a altura da água não estive na minha cintura ou menos, o tempo todo. Se fosse para molhar as canelas preferia ficar em casa e usar uma bacia. Lá pelo menos não teria águas vivas.

E foi o que fiz. Assim que tive a opção de não ir a praia junto com a família, já adolescente, não fui mais.

Detesto praia, até hoje. E sempre que vou é por conta das pessoas, não do lugar.

Mas não se preocupe com meus traumas. Eu pretendo curar isso sobre a praia e mar, afinal de contas, preciso aprender a surfar. Está na minha lista de coisas a fazer antes de morrer.

Falando em morrer, estava lá eu, no mar, morrendo…

Houve um momento em que tive um clic. Uma separação da sensação de “Ops! Acho que fiz merda.” para “Fuck! Eu vou morrer.”

Porém, eu decidi que não queria.

O que pensei na hora lembra muito a lição de Syrio Forel para Arya, em Game of Thrones:

“There is only one God. It’s called Death. And there is only one thing we say to Death – Not Today.”(Só existe um Deus. E se chama Morte. E só há uma coisa que dizemos para Morte – Hoje não.)

Depois daquele clique o tempo ficou muito lento, só faltou uma trilha sonora dramática para fazer fundo a todas as coisas que pensei em uma fração de segundo.

Eu pensei em todas as vezes que cogitei o suicídio durante a minha vida. E não foram poucas vezes. Pensei que a uns quilômetros dali meus pais poderiam estar nesse mesmo mar, nessa mesma hora, enquanto eu me afogava, pois eles estão sempre no litoral. E pensei como eles ficariam tristes quando recebessem a notícia, e por finalmente estarem certos sobre eu não dever ir pro fundo. Eu pensei nas pessoas de quem não poderia me despedir e no que não havia dito ainda a elas. Eu pensei sobre não ter um filho ainda.

E pensei que iria morrer como um completo fracasso. Fazendo um bate e volta, depois de beber cerveja na beira da praia, usando uma bermuda que me fazia parecer ridículo, em um dia que deveria estar no trabalho.

Honestamente, eu não pensei sobre a bermuda. Você não pensa sobre bermudas, antes de morrer, a menos que esteja prestes a ser sufocado por uma carga de bermudas que tombou em você.

Depois do clique, depois de todo esse processo de avaliação e pensamento, eu estava absolutamente, calmo. Já viu aquelas cenas de pessoas se debatendo, apavoradas, enquanto se afogam, por não saberem o que fazer? Não era eu.

Aspirava o ar, pisava no chão, pegava impulso e fazia o melhor para me manter na superfície pela máximo de tempo, com o pouco que sabia sobre como fazer isso.

Movia braços e pernas no melhor estilo tijolinho sincronizado.

Em uma dessas emergidas casuais, percebi que os salva vidas estavam a caminho. Um dos meus amigos havia gritado por socorro. Tudo que precisava fazer era não morrer até me resgatarem. Nesse momento apareceu um tubarão e tive que lutar com ele.

Mentira. Eu respirava. Engolia água. Subia e afundava. Me senti um pacotinho de chá em uma xícara. Sendo mergulhado, uma e outra vez, a fim de tirarem minha essência.

E quase perdi a consciência, nesse processo. As coisas estavam ficando escuras e o oxigênio estava tendo dificuldades de chegar até meus pulmões. Já que meus pulmões estavam comigo, embaixo d’água.

Um salva vidas chegou até mim, de Jetski. E nesse momento eu me senti como um pedestre, já que Jetskis são como motos. E me senti a salvo.

E estava. Ganhei uma carona até a beira e sai caminhando. Recebi uma salva de palmas pela minha tranquilidade e desempenho atlético, e claro, pelo meu look.

Isso também é mentira. Os salva vidas receberam uma salva de palmas. Muito merecida, afinal de contas me salvaram e isso é de um valor inestimável para o mundo.

Sentei com meus amigos, que estavam chorando. Ainda nervosos. Eu calmo e tranquilo como alguém que vence um debate que sabia estar ganho. Hoje não! Havia sido meu argumento final.

Abri uma cerveja.

E, cara, como aquela cerveja estava incrível. Sem dúvida, a melhor cerveja da minha vida.

Aqui você descobre que tudo isso era uma propaganda da Heineken. Pensa no roteiro:

“Sujeito triste vai a praia com amigos. Ele não quer, mas vai. Lá vê uma garota linda. Trocam olhares. Ela entra no mar, ele entra no mar. Ele quase se afoga. É salvo. Chega na areia, a garota aflita o recebe. Eles se beijam. Ele, amigos, garota brindam, cada um com sua Heineken na mão. Na tela o slongan: Heineken. Tastes like life! ou Heineken. Gostosa como a vida!”

Podem usar minha história. Faço um precinho camarada.

Essa é uma história real.

Aconteceu assim mesmo. Na época eu estava passando por um momento difícil. Meu coração estava em mais pedaços que o gelo da caixa de isopor. Eu não gostava do trabalho que tinha. Estava mega deprimido. Fraco. Não treinava direito. Não comia direito Não dormia bem. Estava com cerca de 10Kg a menos do que hoje. 10Kg a menos de músculos. Eu, definitivamente não tinha o pensamento mais positivo do mundo, mas percebi que preferia viver.

A vida não mudou de uma hora para outra. A única coisa que quase me afogar fez foi me tornar menos hipócrita e nunca mais pensar em suicídio. A natureza me ofereceu uma chance, ia parecer um acidente, tudo combinado. E me recusei.

Opa! Parece que não queria morrer, não. Só queria acabar com o sofrimento e a angústia de ter uma existência medíocre e sem sentido.

E, adivinhe, existe outro modo!

Se tornar alguém mais forte e dar um sentido para vida.

Aliás, essa é a única tarefa a qual ninguém consegue fugir. Você recebe uma vida e precisa escolher o que fazer com ela.

E isso não é fácil. Aposto que você sabe. Existem milhões de empecilhos entre você e o que você, do fundo do coração, quer.

Mas temos tempo e todo dia uma nova chance. Escolha algo e vá fazer, caramba.

Não estou dizendo para largar seu emprego, sua família ou seja lá quais são suas responsabilidades de uma hora para outra. Dê uma passo de cada vez. Se prepare. Se programe.

Melhore quem você é, dia após dia para se tornar a pessoa que você precisa ser para conseguir o que deseja.

Novamente, não é fácil. Mas que outra coisa você pretende fazer?

Passar o tempo fazendo palavras cruzadas e pensando como seria ter isso ou aquilo e como seria bom se essa ou aquela outra coisa tivesse acontecido?

Se fosse estivesse se afogando, agora, você estaria satisfeito(a) com a sua vida?

Pois, se você ainda quer mais, o que está esperando?

Não espere até ser tarde demais.

O tempo pode até ficar mais lento, mas a verdade é que ele não para.

Comente. Compartilhe. Esse texto pode animar o dia de alguém.


RICARDO KRAWLZ

Publicado no Facebook em 28 de Março, 2019

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