terça-feira, 19 de abril de 2022

Coragem e Bravura

Canto X – 147-148

Olhai que ledos vão por várias vias,
Quais rompentes leões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros;
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolatras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a peixes, ao profundo:

Por vos servir a tudo aparelhados,
De vós tão longe, sempre obedientes
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar resposta, prontos e contentes;
Só com saber que são de vós olhados,
Demônios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido,
Que vencedor vos façam, não vencido.


Olhai que os vossos vassalos vão ledos por várias vias, quais rompentes leões e bravos touros, dando os corpos: a fomes e a vigílias; a ferro e a fogo; a setas e a pelouros; a regiões quentes e plagas frias; a golpes de idólatras e de mouros; a perigos incógnitos do mundo; a naufrágios, a peixes, e ao profundo sono [à morte] (1).

(1) O poeta tem mostrado já anteriormente que os antigos portugueses se mostravam sempre alegres, para, em obediência ao seu rei e para glória dele, se exporem a toda espécie de perigos, em terra e no mar (I, 51, VI, 98, X, 149). Na presente estância repete o poeta a mesma idéia, sumariamente, dirigindo-se a el-rei, para que atenda ao mérito, evitando que a falta de atenção régia para os vassalos, com a falta de estímulo, faça cair a sociedade em “tristeza vil” (est. 145).
No verso 6 “idolátras”: II, 51; VII, 73.
No verso 2 “rompentes” é termo de heráldica: “animal rompente” é o que no alto dos escudos se pinta, aparecendo só a cabeça, ou que se pinta de pé ocupando uma parte do escudo: aqui: tem a significação de “dilacerantes”.


Para vos servirem, os vossos vassalos, a tudo aparelhados [dispostos para tudo], ainda que estejam muito longe de vós, serão sempre obedientes a quaisquer ásperos (1) mandados vossos, sem darem resposta (2), e sempre prontos e contentes; e, só com o saberem que são olhados por vós, acometerão convosco (3), negros e ardentes demônios infernais (4); e não duvido [e tenho a certeza] que vos farão vencedor e não vencido.

(1) “Ásperos mandados”, ordens rigorosas, de difícil execução; devendo entender-se que o rigor não seria de tirano, mas da observância de princípios de justiça, em harmonia com as conveniências da pátria. (2) “Sem resposta”: obedeceriam calados sem apresentarem objecções. (3) “Convosco”, por vossa causa. (4) “Demônios infernais”: hipérbole (igual em IV, 80); teriam coragem para investir com o poder infernal.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

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