quinta-feira, 14 de abril de 2022

Cobiça e Justiça

Canto X – 58

“Mas na Índia cobiça e ambição,
Que claramente põe aberto o rosto
Contra Deus e justiça, te farão
Vitupério nenhum, mas só desgosto.
Quem faz injuria vil e sem razão,
Com forças e poder em que está posto,
Não vence; que a vitória verdadeira
É saber ter justiça nua e inteira.


“Mas na Índia a cobiça e a ambição (1) [os ambiciosos], que põem o rosto aberto claramente contra Deus e a justiça (2), nenhum vitupério te farão mas só desgosto (3). Quem faz injúria vil, e sem razão, com as forças e com o poder em que está posto [investido], não vence (4), que [pois] a verdadeira vitória é saber ter justiça nua (5) e inteira.

(1) Alusão à cobiça de altos funcionários da Índia, de quem Diogo de Castro dizia que, em certa época, os portugueses, esquecendo-se de si próprios, procediam de maneira que pareciam naturais da Ásia, entregando-se a toda sorte de ambições e de prazeres. (2) “Rosto aberto”, etc; sem vergonha, descaradamente (na cegueira da cobiça). “Neste nosso oriente, a que chamamos de Índia, reina mais a cegueira da fortuna, que a luz da razão” (João de Barros). (3) “Nenhum vitupério”, etc; os ambiciosos, injuriando Mascarenhas, não produziram o seu descrédito, somente lhe causaram desgosto. (4) “Injúria vil” etc; aqueles que têm nas mãos o poder e deste se servem para praticarem injustiças, a si próprios se afrontam mais do que ao ofendido. Vencer é ter razão; e ser justo, não é estar com o poder na mão para usar dele em detrimento alheio. (5) Simples; decisões justas que sejam facilmente compreendidas, sem refolhos, sem artifícios: Lopo Vaz, apossando-se indevidamente do poder que devia ser exercido por D. Pedro de Mascarenhas, simulava proceder com justiça (justiça artificial).


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

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