segunda-feira, 18 de abril de 2022

Deus e Máquina

Canto X – 80

Vês aqui a grande máquina do mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do saber alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende;
Que a tanto o engenho humano não se estende.


Aqui vês a grande máquina etérea (1) e elementar (2) do mundo, que foi fabricada assim pelo alto e profundo Saber (3), que é [existe] sem principio e sem meta limitada (4). Quem cerca em redor este globo rotundo, e a sua tão limada [lisa] superfície é Deus (5); mas o que é Deus, ninguém o entende, pois a tanto não se estende [não chega] o engenho humano (6).

(1) Dos céus. (2) Dos elementos; segundo a astronomia antiga, consideravam-se elementos o ar e o fogo, e supunha-se que estes formavam as primeiras camadas celestes em volta da terra; supondo-se também esta o centro do universo; cfr. Advertência. (3) “Alto Saber”, a Sabedoria divina, Deus. (4) “Meta limitada”, marco de limite; fim (sem princípio nem fim). (5) “Quem cerca”, etc; era doutrina corrente que o último céu era o Empíreo, superior à esfera era que estavam fixadas as estrelas; e que, segundo o paganismo, era a morada dos deuses; e, no catolicismo, o lugar dos bem-aventurados, dos santos, o Céu. (6) “O que é Deus”, etc; afirma Faria e Sousa que os dois últimos versos contêm doutrina pregada por S. Paulo, S. Crisóstomo, e outros doutores da Igreja.

Observações de A astronomia dos Lusíadas (pp.39, 43, 57) sobre a presente estância:
“A superfície deste rotundo globo, superfície tão ‘limada’ como se diz na est. 80, é uma superfície esférica. Leia-se a definição de esfera, com que abre o capítulo I do Tratado da Esfera, de Pedro Nunes.”
“No Tratado da Esfera lê-se, na parte do capítulo I, intitulada ‘Da redondeza do céu’: ‘Que o céu seja redondo há três razões: semelhança, proveito e necessidade. Pela semelhança se prova o céu ser redondo, porque este mundo sensível é feito à semelhança do mundo arquetípico, no qual não há princípio nem fim. E por isso o mundo sensível tem figura redonda, na qual não há princípio nem fim.
“A máquina do mundo, assim mostrada ao Gama, como transunto reduzido do universo, tal qual o concebia a ciência do tempo, divide-se em duas regiões: etérea e elemental.
“Na tradução de Pedro Nunes [do texto latino de Sacrobosco] lê-se: ‘A universal máquina do mundo se divide em duas partes: celestial e elemental. A parte elemental é sujeita a contínua alteração e divide-se em quatro, a saber: terra, a qual está como centro do mundo no meio assentada; segue-se logo a água, e por derredor dela o ar; e logo o fogo que chega ao céu da Lua, segundo diz Aristóteles no livro dos meteoros; porque assim os assentou Deus glorioso e alto. E estes quatro são chamados elementos, os quais uns dos outros se alteram e corrompem e tornam a gerar [...]. Junto da região dos elementos está logo a região celestial lúcida, e pelo seu ser imudável é livre de toda a mudança, tem contínuo movimento circular, e chamam-lhe os filósofos Quinta essência”.
Cfr. as transcrições de A Astrononomia, etc. nas notas à est 78.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

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