Canto II - 9
E, despois que ao rei apresentaram
Co’o recado os presentes que traziam,
A cidade correram e notaram
Muito menos daquilo que queriam;
Que os Mouros cautelosos se guardaram
De lhe mostrarem tudo o que pediam:
Que onde reina a malícia, está o receio,
Que a faz imaginar no peito alheio.
E – depois que apresentaram [=depois de apresentarem], ao rei, os presentes, com o [=mais o] recado (1) que traziam – correram a cidade (2), e notaram [=tomaram conhecimento de] muito menos daquilo que queriam saber; que [=pois] os mouros, cautelosos, guardaram-se (3) de mostrar-lhes tudo o que os dois enviados pediram [=buscavam]; que [=porque], onde [em quem] reina [=domina] a malícia (4), está o receio, que a faz imaginar no peito alheio (5).
(1) Mensagem. (2) Andaram pela cidade rapidamente, de modo que não podiam observar tudo com minudência. (3) “Guardara-se de” = evitaram. (4) “Onde reina...”, quem tem malícia, tem receio de que as outras pessoas sejam igualmente maliciosas. (5) O coração de outrem; o perverso está sempre desassossegado; tudo quanto esse premedita contra o próximo, isto mesmo imagina e receia que lhe façam.
Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões
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