quarta-feira, 13 de abril de 2022

Conselho e Aparência

Canto VIII – 54-55

Ó quanto deve o rei, que bem governa,
De olhar que os conselheiros ou privados,
De consciência e de virtude interna,
E de sincero amor sejam dotados!
Porque, como este posto na superna
Cadeira, pode mal dos apartados
Negócios ter notícia mais inteira
Do que lhe der a língua conselheira.

Nem tão pouco direi que tome tanto
Em grosso a consciência limpa e certa,
Que se enleve num pobre e humilde manto,
Onde ambição a caso ande encoberta.
E quando um bom em tudo é justo e santo,
Em negócios do mundo pouco acerta;
Que mal com eles poderá ter conta
A quieta inocência, em só Deus pronta.


Oh! O rei que governa bem (1), quanto deve olhar, para que os seus conselheiros ou privados (2) sejam dotados de consciência, de virtude interna e de sincero amor! Porque, como esteja posto da cadeira suprema (3) mal pode, dos apartados (4) negócios, ter notícia mais inteira do que a notícia que lhe der a língua conselheira.

(1) O poeta interrompe a narrativa, fazendo reflexões, continuadas na estância seguinte, sobre a necessidade de os reis se rodearem de pessoas virtuosas, que lhes dêem informações verdadeiras. (2) “Conselheiros”, os que, por natureza do cargo oficial, tenham de dar parecer sobre os negócios; “privados” os que, por natureza de cargo particular, tenham freqüentes ocasiões de se aproximarem dos reis. Não se confundam os vocábulos “privado” e “valido”; este último aplica-se geralmente a quem é benquisto e protegido dos reis, mesmo sem o merecer. (3) Superior; o sólido régio. (4) “Negócios apartados”, fatos que se passam em sítios distantes da corte ou que, por conterem demasiadas minúcias, estão muito abaixo das regiões em que o rei vive; só por intermédio dos ministros pode ele conhecer tais negócios.


Nem tão pouco direi (1), que o rei tome tanto em grosso (2) a consciência limpa e certa, que se enleve num pobre e humilde manto (3), onde acaso ande ambição encoberta. E um homem bom, quando é justo e santo em tudo, pouco acerta em negócios do mundo; que [pois] a quieta inocência (4) – só pronta [confiada] em Deus – mal poderá ter conta com eles [neles, nos negócios do mundo].

(1) Também não direi. (2) Avalie tanto por alto, tão superficialmente, as aparências de santidade. (3) “Humilde manto”, o vestuário, a exterioridade, com aparências de humildade: a hipocrisia, ocultando orgulho e cobiça. (4) “Quieta inocência”, repetição, por outras palavras, da idéia dos versos 5 e 6; o santo varão, atento em Deus não sabe descortinar a maldade desenvolvida pelo astucioso hipócrita nos negócios mundanos.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

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