quarta-feira, 6 de abril de 2022

Ambição e Condição

Canto IV - 104

“Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitetor co’o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio!
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio.
Deixa intentado a humana geração!
Mísera sorte! Estranha condição!”


“Se não fora esse fogo roubado do céu (1), o miserando moço não cometeria o alto carro do pai (2); nem o grande arquiteto cometeria, com o filho, o vazio ar (3) – dando, um, nome ao mar, e o outro fama ao rio (4). A geração humana nenhum alto e nefando cometimento (5) deixa intentado [=intacto] (6) por meio de fogo, ferro, água, calma e frio! Mísera sorte! Estranha condição (7)!


(1) Subentendem-se estas palavras ou outras semelhantes, porque na presente estância prossegue o pensamento da precedente: se não fosse a ambição, ... (2) “Miserando”, etc.; o moço é o atrevido Faetonte, que pretendeu governar o carro do Sol, o carro de seu pai, Apolo; cfr I, 46 e passim; “cometera”, tentara, intentara; acometera, apoderara-se do..., lançara-se sobre o carro do Sol, para o guiar. (3) “Arquitetor”, etc.; forma antiga de “arquiteto”, no sentido de “engenhoso” – aplicado este epíteto elipticamente ao Dédalo da fábula, que pretendeu com asas artificiais voar como as aves, lançando-se no ar (“vazio por ser a atmosfera, na aparência, o vácuo) e lança-se no ar com seu filho Ícaro. (4) “nome ao mar”, etc.; segundo a fábula, caindo Ícaro no mar, este ficou tendo o nome de Icário; e caindo Faetonte no rio Pado, ficou este célebre por essa queda; cfr. I, 46. (5) “Cometimento”, empreendimento – quer seja “alto” (subido, digno de louvor), quer seja “nefando” (torpe, de natureza tal que não se possa ou deva dele falar). (6) “Intentado” = não tentado = intacto; não há empresa que os homens não realizem – quando movidos pela ambição, umas vezes praticando ações nobres, outras vezes praticando atos nefandos – ainda que tenham de padecer fogo e ferro (a guerra), água (a inclemência dos mares), calma e frio (as vicissitudes dos climas que padeceram os navegantes na zona tórrida e no mar Antártico). (7) “Mísera sorte”, etc.; epifonema, lastimando intensamente a infelicidade de Portugal, que arriscava, sem correspondente proveito, tantas vidas na Índia; e admirando a estranha (extraordinária, admirável, por incoerente) condição humana; cfr. Est. 95 e 97.


Os Lusíadas – Luis Vaz de Camões

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