Mas essa loucura permaneceu sã. A loucura permaneceu sã quando tudo o mais enlouqueceu. O hospício tem sido uma casa à qual, época após época, os homens estão continuamente retornando como se fossem para casa. Esse é o enigma que remanesce; o de que nada de tão abrupto e anormal seria ainda tido como algo de habitável e hospitaleiro. Não me importo se o cético diz que é uma história impossível; não consigo compreender como uma torre tão alta poderia permanecer de pé por tanto tempo sem possuir um alicerce. Menos ainda consigo compreender como poderia se tornar, como se tornou, o lar do homem. Tivesse apenas aparecido e desaparecido, possivelmente seria lembrada e explicada como o último salto da fúria da ilusão, o derradeiro mito do estado de espírito final, no qual a mente atinge o céu e despedaça. Mas a mente não se despedaçou. Ela é a única mentalidade que permanece incólume em meio ao despedaçamento do mundo. Se ela fosse um erro, pareceria que esse erro dificilmente seria capaz de durar um único dia sequer. Se ela fosse um êxtase supremo, pareceria que esse êxtase não seria capaz de durar sequer uma hora. Ela durou por quase dois mil anos; e o mundo moldado por ela tem sido mais lúcido, mais equilibrado, mais sensato em suas esperanças, mais saudável em seus instintos, mais bem-humorado e animado frente ao fado e à morte, do que todo o mundo ao redor. Pois foi a alma da cristandade que adveio do inacreditável Cristo; e a alma dela era o senso comum. Embora não ousemos olhar para Seu rosto, podemos olhar para os seus frutos; e pelos Seus frutos nós O conheceremos. Os frutos são consistentes e a fertilidade é muito mais que uma metáfora; e em nenhum lugar deste triste mundo há crianças mais felizes trepadas nas macieiras, ou homens a cantar num coro mais harmônico enquanto pisam a vinha, do que sob o lampejo fixo desta iluminação instantânea e intolerante; o relâmpago tornado eterno como a luz.
O Homem Eterno - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 12 de Outubro, 2017
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