sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Paganismo e Decadência

O paganismo viveu com base na poesia; aquela poesia que já abordamos sob o nome de mitologia. Mas em toda parte, e especialmente na Itália, essas poesia e mitologia tinham suas raízes no campo; e essa religião rústica tinha em grande medida sido responsável pela alegria rústica. Somente quando a sociedade passou a acumular idade e experiência foi que principiou a surgir aquela fraqueza por toda a mitologia, a qual já abordamos no capítulo dedicado ao assunto. Essa religião não era inteiramente uma religião. Em outras palavras, essa religião não era inteiramente uma realidade. Era a vida desregrada de um jovem mundo com imagens e idéias, tal qual a vida desregrada de um jovem homem com vinho e namoros; era algo menos imoral que irresponsável; não previa de forma alguma a prova derradeira do tempo. Por ser um mundo de criatividade desenfreada, era de uma credulidade desenfreada. Ele pertencia ao lado artístico do homem, ainda que mesmo se considerado artisticamente ele há muito já estivesse sobrecarregado e estorvado. As árvores genealógicas advindas da semente de Júpiter eram mais uma selva que uma floresta; os direitos dos deuses e semideuses pareciam coisas a serem dirimidas mais por um jurista ou um heraldista do que por um poeta. Mas é desnecessário dizer que não foi só sob o aspecto artístico que essas coisas se tornaram mais anárquicas. Foi aparecendo de forma pouco a pouco mais flagrante aquela flor do mal que está latente na própria semente do culto da natureza, por mais natural que ela possa parecer. Eu afirmei que não acredito que o culto natural começa necessariamente com essa paixão em particular; não faço parte da escola de folclore científico de De Rougemont. Eu não acredito que a mitologia deva começar pelo erotismo. Mas efetivamente acredito que deve terminar nele. Quase tenho certeza que a mitologia de fato terminou nele. Mais ainda, não apenas a poesia se tornou mais imoral, mas a imoralidade se tornou mais indesculpável. Os vícios gregos, os vícios orientais, resquícios dos antigos horrores dos demônios semíticos começaram a ocupar as fantasias da Roma decadente, enxameando como moscas em torno de uma estrumeira. A psicologia disso é realmente bastante humana para qualquer pessoa que experimente ver a história desde dentro. Chega uma determinada hora da tarde em que a criança já esta cansada de “fingir”; quando está cansada de ser um bandido ou um pele-vermelha. É aí que ela passa a atormentar o gato. Chega um momento na rotina de uma civilização bem organizada quando o homem cansa de brincar de mitologia e de fingir que uma árvore é uma donzela ou que a lua fez amor com um homem. O resultado dessa insipidez é a mesma em toda parte; ele é visto no consumo de drogas e no consumo de bebida a tragos e em toda forma que a tendência de aumentar a dose assuma. Os homens buscam pecados mais estranhos ou obscenidades mais chocantes como estimulantes aos seus sentidos já fatigados. Eles buscam religiões orientais loucas pleo mesmo motivo. Eles tentam apunhalar os seus próprios nervos para reavivá-los, caso dispusessem das facas dos sacerdotes de Baal. Eles estão caminhando em seus próprios sonhos e tentam acordar por meio de pesadelos.


O Homem Eterno - G. K. Chesterton


Publicado no Facebook em 12 de Outubro, 2017

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