quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Impulso e Limite

Imagine uma criancinha batendo repetidamente no rosto da mãe. Porque ela faria isso? É uma pergunta tola. É inaceitavelmente ingênua. A resposta é óbvia. Para dominar sua mãe. Para ver se pode se safar dessa. A violência, afinal, não é um mistério. A paz, sim, é um mistério. A violência é o padrão. É fácil. A paz é que é difícil: aprendida, inculcada, conquistada. (As pessoas geralmente fazem as perguntas psicológicas básicas invertidas. Por que as pessoas usam drogas? Não é um mistério. Por que não as usam o tempo todo é que é um mistério. Por que as pessoas sofrem com ansiedade? Não é um mistério. Como as pessoas conseguem ficar calmas? Eis o mistério. Somos quebráveis e mortais. Um milhão de coisas pode dar errado de um milhão de formas diferentes. Deveríamos tremer na base a cada segundo. Mas não fazemos isso. O mesmo pode ser dito sobre a depressão, preguiça e criminalidade.)

Se posso machucar e dominar você, então posso fazer exatamente o que quiser, quando quiser, mesmo quando você estiver por perto. Posso atormentá-lo para satisfazer minha curiosidade. Posso desviar a atenção sobre você, posso dominá-lo. Posso roubar seu brinquedo. As crianças batem, primeiro porque a agressão é inata, embora seja mais dominante em alguns indivíduos do que em outros, e segundo porque a agressão estimula o desejo. É tolice presumir que tal comportamento precisa ser aprendido. Uma serpente não precisa ser ensinada a dar o bote. Está em sua natureza. As crianças de dois anos, estatisticamente falando, são as pessoas mais violentas. Elas chutam, batem, mordem e roubam as propriedades dos outros. Fazem isso para explorar, expressar a revolta e frustração, e satisfazer seus desejos impulsivos. Ainda mais relevante para o nosso propósito, elas fazem isso para descobrir os limites reais do comportamento permitido. De que outra maneira conseguiriam descobrir o que é aceitável? Crianças são como pessoas cegas procurando uma parede. Precisam ir adiante e testar para ver onde, de fato, estão os limites (e eles raramente estão onde alguém disse que estariam).

Uma correção consistente de uma atitude assim indica os limites da agressão aceitável para a criança. Sua ausência apenas aumenta a curiosidade - então a criança vai bater, morder e chutar se for agressiva e dominante até que algo indique um limite. Até quanto posso bater na Mamãe? Até que ela se oponha. Com isso em mente, quanto antes houver correção, melhor (se o resultado final desejado pela mãe for não apanhar). A correção também ajuda a criança a aprender que bater nos outros é uma estratégia social inadequada. Sem essa correção, a criança não passará pelo processo penoso de organizar e regular seus impulsos para que possam coexistir sem conflitos com a psique da criança e com o mundo social mais amplo. Não é tão simples assim organizar uma mente.


12 Regras para a Vida: um Antídoto para o Caos - Jordan B. Peterson


Publicado no Facebook em 24 de Julho, 2018

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