A TABERNA QUE DESAPARECE
O CONTO DE FADAS DE PEBBLESWICK ESPECIAL
e o jornal continha um relato categórico e mais ou menos exato ( se bem que, para fazer-lhe jus) mais exato que menos) do que acontecera, ou do que parecera ter acontecido, aos olhos do atarantado Jorge e de sua turba de simpatizantes. “Jorge Burn, carpinteiro desta cidade, junto de Samuel Gripes, carroceiro a serviço dos Srs. Jay e Gubbins, cervejeiros, e de mais um número de outros residentes locais, conhecidos de todos, passaram em frente ao novo prédio, erigido na West Beach para servir a várias formas de entretenimento e popularmente conhecido como o pequeno Salão Universal. Vendo fincada à sua porta uma das velhas placas, hoje tão raras, daí inferiram - diga-se que de modo perfeitamente apropriado - que o lugar detinha a licença para vender-lhes bebidas alcoólicas, licença esta que tantos outros lugares na vizinhança há pouco haviam perdido. As pessoas que estavam dentro do salão, porém, parecem negar saber que houvesse à porta a referida placa e, quando o grupo (depois de algumas cenas lamentáveis, em que nenhuma vida se perdeu) saiu de volta para a praia, descobriu-se que aquela fora destruída ou roubada. Estavam todos sóbrios; e, de fato, não houve oportunidade alguma para que estivessem em qualquer outro estado. Está-se a investigar o mistério.”Mas esta notícia, comparativamente realista, era local e espontânea; nada devia à honestidade acidental do editor. Ademais, tem-se não raro mais honestidade nos jornais vespertinos que nos matutinos, pois quem escreve naqueles são subalternos, uns funcionários mal pagos que fazem tudo a toque de caixa; não há tempo para gente mais tímida os corrigir. Quando, na manhã seguinte, saíram os jornais matutinos, já a história do sumiço da placa sofrera uma mudança, sutil, mas perceptível. No jornal diário, que por aquelas bandas tinha a maior tiragem e, pois, a maior influência, entregou-se o problema a um cavalheiro conhecido (o que poderá parecer, ao mundo não-jornalístico, um pouco singular) como Hibbs However. Entregara-se-lhe o mistério de gozação, pelo cuidado complicado com que ia qualificando, a cada cinco palavras, todas as críticas públicas que fazia, de modo a fazer tudo depender das conjunções; dos “mas”, “todavia”, “contudo”, e afins. à medida em que lhe aumentavam o salário (pois aos editores e aos donos de jornais muito lhes apraz esse tipo de coisa) e iam debandando seus velhos amigos (pois o mais generoso dos amigos não pode senão desdenhar de um sucesso que não tem, em si, nada do sabor da glória) passava ele, cada vez mais, a ter-se na conta de diplomata; de homem que sempre diz a coisa certa. Mas nem por isso escapou à sua Nêmesis intelectual; pois, ao fim e ao cabo, de tão diplomático, Hibbs tornou-se obscura e solidamente ininteligível. Quem o conhecia não tinha dificuldade alguma em crer que o homem dissera a coisa certa, a coisa cheia de tato, a coisa que haveria de salvar a situação; só não sabiam o que é que dissera. No início de sua carreira, dominava, com maestria, um dos piores truques do jornalismo moderno: o truque de se ignorar a parte importante de uma questão, como se ela pudesse esperar, e aplicar-se com todo o esmero, acuidade e seriedade, àquelas suas outras partes, perfeitamente insignificantes. Assim, pois, ele diria, “seja lá o que possamos pensar sobre o que é justo e injusto na vivissecção das crianças de rua, há que se concordar que o procedimento deveria ser realizado, em qualquer caso, por pessoas especializadas”. Porém, nos últimos dias de sua diplomacia, mais sombrios, parecia simplesmente jogar fora a parte importante de um assunto e pegar pelos chifres alguma linha de associações que elusiva e timidamente lhe surgira na própria cabeça. nestes dias mais recentes, ele poderia muito bem dizer algo assim: “seja lá o que possamos pensar sobre o que é justo e injusto na vivissecção das crianças de rua, não há mente progressista que possa duvidar que a influência do Vaticano está a decair”. Sua alcunha se lhe pegara em honra a um parágrafo que ele supostamente escrevera quando o Presidente Americano fora baleado, por um lunático, em Nova Orleans; e no qual, dizem, lia-se o seguinte: “O Presidente passou bem a noite e sua condição já está muito melhor. O assassino não é, contudo, um alemão, como se supunha a princípio”. Conta-se que as gentes ficavam a contemplar esta observação misteriosa até que perdiam o juízo e queriam, eles mesmos, balear alguém.
[...]
A peça começava, de fato, com a fórmula, relativamente familiar, “quer tenhamos a opinião mais vaga ou a mais avançada sobre o velho e controvertido problema da moralidade ou imoralidade da placa de taberna como tal, parece-me ser indiscutível o fato de que as cenas que se desenrolaram em Pebbleswick foram um tanto vergonhosas para muitos, se bem que não para todos, os que nela estiveram envolvidos”. Depois, o seu tato degenerava-se num carnaval de irrelevâncias. Era um artigo maravilhoso. Nele, o leitor podia entrever qual era a opinião que tinha o sr. Hibbs sobre todo e qualquer assunto que não fosse o assunto do artigo.
[...] e o artigo se chamava “Os Tumultos em Pebbleswick”.
A Taberna Ambulante - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 3 de Julho, 2018
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