quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Moral e Imaginação

No século XX, a ideia foi retomada pelo já citado Lionel Trilling e por Russel Kirk (1918-1994), grande intelectual conservador norte-americano. Ela pode ser definida basicamente como a capacidade de conceber os mais variados e profundos dilemas morais enfrentados pelo homem sem a necessidade de vivenciá-los em primeira pessoa, apreendendo por alegoria, como Kirk glosou platonicamente, a correta ordem da alma necessária à justa ordem da sociedade.

Para a conquista e o alargamento da imaginação moral, é fundamental aquilo que Trilling chamava de “a experiência da literatura”. A erudição acadêmica, o mergulho na bibliografia especializada, a alta formação universitária, tudo isso é vazio sem imaginação moral, que só se adquire mediante contato prolongado e verdadeiro com a mais alta tradição literária. É por meio dos clássicos das letras e das artes que temos a chance de experimentar situações e dramas humanos que, de outro modo, jamais experimentaríamos. Só assim podemos expandir nossa consciência e nossa própria humanidade, transcendendo provincianismos individuais e culturais, tomando parte no grande diálogo da humanidade consigo mesma e adquirindo aquele senso de eternidade sem o qual não passamos de primatas vestidos. Todo bom escritor quer tomar parte nesse diálogo. Todo bom escritor reconhece integrar uma tradição que o ultrapassa. Quem tem como objetivo último lançar-se a mil e uma inovações de forma, piruetas retóricas e rupturas pretensamente iconoclastas com a tradição, é menos um escritor que um ególatra em busca de atenção, alguém fechado em seu próprio tempo biográfico, incapaz, portanto, de elaborar uma linguagem propriamente humana, segundo a definição de Eugen Rosenstock-Huessy.


A Corrupção da Inteligência: Intelectuais e Poder no Brasil - Flávio Gordon


Publicado no Facebook em 7 de Novembro, 2017

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