- ...enfim, é agora evidente - estava a dizer Lorde Ivywood - que uma dessas impossibilidades ancestrais já não é mais impossível. O Ocidente e o Oriente são, agora, um só. O Oriente não é mais Oriente, nem o ocidente, Ocidente; quebrou-se um pequeno istmo; e o Atlântico e o Pacífico são um só oceano. E não há, por certo, no mundo quem tenha feito mais por esta obra grandiosa de unificação do que o filósofo brilhante e ilustre a quem vocês terão o prazer de ouvir esta noite; eu bem queria que afazeres mais imediatos - pois de modo algum direi que são mais importantes - não me impedissem de aqui ficar, a fim de ouvi-lo e apreciar-lhe a eloquência, como tantas vezes o fiz outrora. O sr. Leveson gentilmente consentiu em tomar o meu lugar; e não posso fazer mais do que externar a profunda simpatia que tenho para com os fins e os ideais que haverão de se lhes desvendar hoje, aqui. Desde há muito que venho me convencendo, de modo crescente, que, sob uma certa máscara de austeridade que a religião maometana tem usado ao longo de certos séculos - máscara bastante similar à que tem usado a religião dos judeus -, o Islã esconde em si a potencialidade para se tornar a mais progressista de todas as religiões; de modo que, decorridos um ou dois séculos, haveremos de assistir às causas da paz, da ciência e da reforma serem defendidas universalmente pelo Islã, como são hoje defendidas por Israel. Não é em vão, me parece, que o símbolo desta fé seja o Crescente - aquilo que cresce. Enquanto os outros credos carregam emblemas que implicam, nuns casos mais, noutros menos, a finalidade, para este grande credo esperançoso a sua imperfeição mesma é o que lhe dá orgulho; e os homens haverão de marchar, intrépidos, sobre caminhos novos e maravilhosos, a seguir a curva que crescendo eternamente contém em si e ao mesmo tempo lhes exibe a promessa eterna do orbe.
A Taberna Ambulante - G. K. Chesterton
Publicado no Facebook em 2 de Julho, 2018
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