quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Ética e Religião

O estudo filosófico da moralidade - do certo e errado - é a ética. Esse estudo pode nos tornar mais sofisticados em nossas escolhas. No entanto, ainda mais antiga e profunda do que a ética é a religião. Ela se preocupa não com o (meramente) certo e errado, mas com os próprios bem e mal - os arquétipos de certo e errado. A religião se preocupa com o domínio do valor, o valor supremo. Esse não é o domínio científico. Não é o território da descrição empírica. As pessoas que escreveram e editaram a Bíblia, por exemplo, não eram cientistas. Não poderiam ter sido cientistas, mesmo se tivessem pretendido. Os pontos de vista, métodos e práticas da ciência ainda não haviam sido formulados quando a Bíblia foi escrita.

Pelo contrário, a religião trata de um comportamento correto. Trata do que Platão nomeou de “o Bem”. Um genuíno acólito religioso não tenta formular ideias precisas sobre a natureza objetiva do mundo (embora possa tentar isso também). Em vez disso, ele luta para ser uma “pessoa boa”. Pode ser que para ele “boa” signifique apenas “obediente” - mesmo cegamente obediente. Daí, temos a objeção do iluminismo clássico e liberal do Ocidente contra a crença religiosa: a obediência não é suficiente. Mas ao menos é um começo (e nos esquecemos disso): Você não consegue focar nada se for completamente indisciplinado e ignorante. Você não saberá o que escolher como alvo e não voará em linha reta, mesmo que de alguma forma tenha focado corretamente. E, depois, vai concluir: “Não há nada que focar”. Então, você estará perdido.

É, portanto, necessário e desejável que as religiões tenham um elemento dogmático. O que há de bom em um sistema de valores que não fornece uma estrutura estável? O que há de bom em um sistema de valores que não aponta o caminho para uma ordem superior? E como é possível que você seja bom se não internaliza essa estrutura - seja porque não quer, ou porque não consegue - ou aceita essa ordem - não como um destino final, necessariamente, mas ao menos como um ponto de partida? Sem isso, você não é nada além de um adulto com dois anos, sem o mesmo charme ou potencial da criança. Isso não significa dizer (repito) que a obediência é suficiente. Mas uma pessoa capaz de obedecer - uma pessoa disciplinada da maneira correta, por assim dizer - é, pelo menos, uma ferramenta bem desenvolvida. Pelo menos isso (e já é alguma coisa). Claro, precisa haver visão além da disciplina; além do dogma. Uma ferramenta ainda necessita de um propósito. É por esse motivo que Cristo disse, no Evangelho de Tomé: “O Reino do Pai está disperso pela terra e os homens não o veem”.

Isso significa que o que vemos depende de nossas crenças religiosas? Sim! E o que não vemos também! Você pode objetar: “Mas sou ateu”. Não, você não é (e se quiser entender isso poderá ler Crime e Castigo, de Dostoiévski, talvez o maior romance já escrito, no qual o personagem principal, Raskólnikov, decide levar seu ateísmo com uma seriedade verdadeira, comete o que ele racionalizou como um assassinato benevolente, e paga o preço). Você simplesmente não é um ateu em suas ações, e são elas que refletem mais acuradamente suas crenças profundas - aquelas que estão implícitas, incorporadas no seu ser, sob suas apreensões conscientes e suas atitudes exprimíveis no nível da superfície de seu autoconhecimento. Você só consegue descobrir no que de fato acredita (em vez do que pensa que acredita) ao observar suas ações. Você simplesmente não sabe no que acredita antes disso. Você é complexo demais para entender a si mesmo.


12 Regras para a Vida: um Antídoto para o Caos - Jordan B. Peterson


Publicado no Facebook em 24 de Julho, 2018

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