Sabei que não há nada de mais nobre, de mais forte, de mais são e de mais útil na vida que uma boa recordação, sobretudo provindo da juventude, da casa paterna. Falam-vos muito de vossa educação; ora, uma recordação santa, conservada desde a infância, é talvez a melhor educação. Se fazemos provisão de tais recordações para a vida, salvamo-nos definitivamente. E mesmo se só guardarmos no coração uma boa recordação, isto poderá servir um dia para nos salvar. Talvez nos tornemos mesmo maus, mais tarde, incapazes de nos abstermos duma má ação, rirmos das lágrimas de nossos semelhantes, dos que dizem, como Kólia exclamou ainda há pouco: "quero sofrer por todos", talvez zombemos deles maldosamente. Mas, por piores que nos tornemos, do que Deus nos preserve, quando nos lembrarmos de como enterramos Iliúcha, de como o amamos nos seus derradeiros dias, e das conversas que mantivemos cordialmente em redor dessa pedra, o mais duro e o mais zombeteiro dentre nós, se assim nos tornarmos, não ousará zombar, no seu foro íntimo, dos bons sentimentos que experimenta neste momento! Mais ainda, talvez que precisamente essa recordação apenas o impeça de agir mal; fará um exame de consciência e dirá: "Sim, eu era bom então, ousado, honesto". Que ria mesmo consigo mesmo, pouco importa, a gente zomba muitas vezes do que é bom e belo; é somente por leviandade, mas asseguro-vos que, logo depois de ter rido, dirá a si mesmo em seu coração: "Fiz mal em rir-me, porque não devemos rir dessas coisas!"
— Será absolutamente assim, Karamázov, eu o compreendo! — exclamou Kólia, de olhos brilhantes.
Os meninos agitaram-se e queriam também gritar alguma coisa, mas contiveram-se e fixaram no orador olhares emocionados.
— Disse isto para o caso em que nos tornarmos maus — prosseguiu Aliócha. — Mas por que nos tornarmos maus, não é, meus amigos? Seremos antes de tudo bons, depois honestos, enfim, não nos esqueceremos jamais uns dos outros. Insisto nisto. Dou-vos minha palavra, meus amigos, de que não esquecerei nenhum de vós: cada rosto que me olha agora, dele me lembrarei, mesmo daqui a trinta anos.
Os Irmãos Karámazov - Fiódor Dostoiévski
Publicado no Facebook em 30 de Março, 2018
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