sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Sofrimento e Sentido

Em vez de fazer aqui considerações teóricas, gostaria muito mais de reportar-me a experiências práticas, particularmente a experiências concretas e reais: um dia, topei com uma sessão de terapia de grupo organizada por meu assistente, o Dr. K. Kocourek. O grupo discutia o caso de uma mulher que acabara de perder o filho de onze anos, vitimado por uma apendicite aguda, restando-lhe um filho de vinte anos, que sofria de paralisia cerebral e precisava mover-se numa cadeira de rodas. A mãe havia tentado o suicídio e, por conseguinte, fora conduzida e internada em minha clínica. Inseri-me na discussão do caso, escolhendo do grupo uma jovem a quem de improviso pedi que se imaginasse aos oitenta anos, próxima da morte, e que lançasse um olhar retrospectivo sobre a própria vida, uma vida cheia de prestígio social e sucesso amoroso, mas também nada mais do que isso:
O que dirias a ti mesma? Tive tudo de bom na vida, fui rica, mimada deixei os homens loucos de paixão, enquanto flertava com eles, e não abandonei nenhuma forma de prazer. Mas agora estou velha, não tive filhos e tenho de admitir que, rigorosamente falando, minha vida foi um fracasso, visto que não posso levar nada comigo ao túmulo. Para que estive no mundo?
Convidei então a mãe do deficiente físico a colocar-se na mesma situação e que nos dissesse o que pensava:
Eu sempre desejei ter filhos, e este meu desejo realizou-se. O mais jovem faleceu, e fiquei sozinha com o mais velho. Se não fosse eu o que lhe teria acontecido... É provável que tivesse sido levado a uma instituição para deficientes mentais; mas era eu quem estava ali e pude ajuda-lo a fazer-se homem. Minha vida não foi um fracasso. É possível que tivesse sido difícil, havia muitas tarefas para cumprir, mas consegui superá-las e tornar a minha vida plena de sentido. Agora posso morrer em paz.
Somente entre soluços ela conseguiu proferir essas palavras. Puderam delas então tirar os outros pacientes a lição de que o que importa não é tanto que a vida de um ser humano seja dolorosa ou prazerosa, mas que seja carregada de sentido.


O Sofrimento de uma Vida sem Sentido – Caminhos para encontrar a razão de viver - Viktor E.Frankl

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