Há uma tendência de colocar esses dois pólos sempre em oposição, como se o corpo estivesse eternamente sujeito ao movimento de queda e o espírito, ao contrário, sempre em elevação. Mas não funciona assim; muitas vezes a mente também deseja coisas simplórias, e o corpo pode necessitar de elevação. Esse pensamento gera muito sofrimento às pessoas que buscam orientação espiritual nos dias de hoje. Às vezes, por uma falta de compreensão dos termos próprios de análise do espírito, muitos conselhos espirituais acabam sendo cruéis, simplificando toda a profundidade da existência na dicotomia "o corpo é mau e a alma é boa". Quando as necessidades, seja do corpo ou da mente, são atendidas, é comum sentir-se satisfeito e alegre. A satisfação das necessidades cria nos indivíduos a expectativa de conseguir se instalar dentro desse domínio de alegria, mas isso não acontece todas as vezes, e é justamente nesse balanço entre expectativa atendida e frustração que se insere a dedicação a uma "vida espiritual". É neste ponto que está inscrita a dinâmica da religião, muitas vezes ignorada.
Quando nos aproximamos do tema munidos das perguntas "o que é religião?" ou "o que é a vida espiritual?", é difícil encontrar uma resposta precisa. Normalmente nos dizem que se trata do "amor de Deus", ou de "ajudar o próximo", "freqüentar os cultos", e "cumprir os preceitos". São respostas possíveis, mas que correspondem tão somente a elementos componentes da realidade da religião ou da vida espiritual propriamente dita. A melhor pergunta a ser feita num primeiro momento seria não só "o que é a religião ou a vida espiritual?" mas "quais os efeitos que ela causa em nós?". As pessoas costumam duvidar se a prática de sua religião está produzindo os efeitos esperados. Isso acontece porque elas não sabem quais são os efeitos que a religião traz e qual é sua dinâmica até a conquista dos objetivos. Sem a noção exata dos movimentos em curso em nossas almas é muito fácil passar décadas se enganando e, no fim das contas, nutrir secretamente uma tristeza e uma decepção em relação à prática relgiosa, porque já faz anos que o indivíduo age da mesma maneira e se comporta do mesmo modo diante das situações que a vida lhe apresenta.
Ora, a religião é uma prática, um conjunto de práticas. As virtudes espirituais, como a fé e a esperança, vêm num segundo momento, mas a religião é, sobretudo, uma seqüência de ações. Para gerar efeitos na alma e na vida do praticante, uma parte importantíssima da religião diz respeito justamente à relação entre o corpo e a mente. É fundamental, portanto, observar nossos movimentos internos na relação com as práticas religiosas, com os ritos, os textos da Escritura etc. Buscar uma religião é ter alguma pretensão de eternidade, compreendendo que há coisas que continuam existindo mesmo sem o corpo, sem a matéria. Na morte, o corpo e a matéria se esvaem, e se não há outras necessidades além destas alimentadas em vida, se o sujeito deu atenção apenas às necessidades físicas e palpáveis, o elemento imaterial que subsiste, a alma, também se voltará para esses desejos e necessidades, e viverá em eterna frustração. A mente vai continuar desejando aquelas coisas, mas já não será possível atendê-la, e sua vida eterna será, literalmente, um inferno. Como foi dito, há dois tipos de desejos da mente: os inferiores, relacionados ao corpo e aos impulsos físicos, e os superiores, relacionados à necessidade e ao amor à verdade, ao conhecimento do bem e à alegria na beleza. Este é o espaço que a religião ocupa na vida: ela é o esforço virtuoso por acostumar a mente a desejar as coisas que subsistem mesmo sem o corpo. A verdade segue sendo verdade sem corpo; a beleza segue sendo beleza. A prática da religião deve fazer com que, nesta vida, cada pessoa se acostume a desejar a verdade, o bem e a beleza.
Agora, para alcançar este fim, o que a religião nos oferece é uma "técnica espiritual", que torna possível às pessoas concentrar as atividades da mente no conhecimento do bem, no amor à verdade e na alegria da beleza, e dominá-la é fundamental para que a religião tenha o efeito correto no dia-a-dia. Não basta apenas confiar na misericórdia de Deus; este é um ponto fundamental da religião, sem o qual os outros perdem o fundamento, mas não é o único, e o apego irrefletido a ele pode impedir a evolução da alma, caso se conclua, a partir dele, que não é necessário se esforçar.
Os 4 Temperamentos na Educação dos Filhos - Dr. Ítalo Marsili
Publicado no Facebook em 23 de Abril, 2019
Publicado no Facebook em 23 de Abril, 2019
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