sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Linguagem e Liberdade

Eu disse que uma pessoa cercada de publicitários - ou de políticos em época de eleições - nem acredita em tudo literalmente nem rejeita tudo integralmente, mas escolhe de acordo com sua visão da sociedade. O essencial é o poder de escolha. Em tempos de guerra esse poder é enormemente restringindo, e resignamo-nos a viver de acordo com meias verdades até segunda ordem. Num estado totalitário a competição de discursos políticos míngua e, com isso, veda-se o poder de escolha imaginativa. Intrínseca ao nosso medo e ódio da guerra e dos governos totalitários é a sensação de claustrofobia que a imaginação provoca quando impedida de funcionar como deve. É este o aspecto da tirania que Orwell retratou com tanta proeminência em 1984, chegando a sugerir que o único meio de construir uma tirania permanente e inabalável - ou, por outra, o único meio de criar um inferno na terra - seria pela deliberada degradação da linguagem, transformando nossa fala numa espécie de palavrório automático. É genuíno o medo de ser rebaixado a uma vida assim; mas, tão logo o exprimimos em clichês histéricos, rebaixamo-nos a esse estado por conta própria. Já dizia o poeta William Blake, ao descrever um fenômeno similar: tornamo-nos aquilo que contemplamos.

É muito comum pensar no estudo da literatura, ou mesmo no estudo de uma língua, como uma espécie de métier elegante, uma questão de ser bom em gramática ou de manter as leituras em dia. Estou tentando mostrar que o assunto é um pouco mais sério que isso. Não vejo separação possível entre o estudo da língua ou da literatura e a questão da liberdade de expressão, que todos sabemos ser fundamental para nossa sociedade. O âmbito da fala corriqueira, na minha visão, é um campo de batalha entre duas formas de discurso social: o discurso de uma turba e o discurso de uma sociedade livre. O da turba representa o clichê, a idéia pré-fabricada e o falatório automático, e leva-nos inevitavelmente da ilusão à histeria. Numa turba não pode haver liberdade de expressão: é coisa que ela não suporta. As pessoas que deixam seu medo do comunismo tornar-se histérico uma hora ou outra desembestam a acusar de comunista qualquer homem são que lhes passe pela frente. Liberdade de expressão, ademais, não é resmungar e reclamar que o país está um caos e que todo político é corrupto, mentiroso, etc. etc. O resmungo nunca vai além de clichês dessa espécie, e o cinismo vago que eles exprimem é a atitude de quem anda procurando alguma turba a que se juntar.


A Imaginação Educada - Northrop Frye


Publicado no Facebook em 3 de Abril, 2019

Nenhum comentário:

Postar um comentário