A solução que Nietzsche impetuosamente abraçou nesse dilema foi negar a soberania completa da verdade: dizer que “não há verdades” e construir uma filosofia de vida sobre as ruínas da ciência e da religião, em nome de um ideal puramente estético. Eliot viu o absurdo de tal resposta e notou o isolamento deliberado do homem que a deu. O paradoxo permanece. As verdades que importavam para Eliot são verdades de sentimento, verdades sobre o peso da vida humana e sobre a realidade do sentimento humano. A ciência não torna essas verdades mais facilmente perceptíveis: pelo contrário, ela lança na psique humana um rebanho de fantasias – liberalismo, humanismo, utilitarismo e o resto – que lhe desviam a atenção para a vã esperança de uma moralidade científica. O resultado é uma corrupção da própria linguagem do sentimento, uma decadência da sensibilidade para o sentimentalismo e um velamento do mundo humano. O paradoxo é, pois, este: as mentiras da fé religiosa permitem-nos perceber as verdades que importam. As verdades da ciência, dotadas de uma autoridade absoluta, escondem as verdades que importam e tornam a realidade humana imperceptível. A solução de Eliot para esse paradoxo veio no caminho que ele tomou até a descoberta: o caminho da poesia, com seus exemplos agonizantes de poetas cuja precisão, percepção e sinceridade eram os efeitos de uma fé cristã. A solução era abraçar a fé cristã – não como Tertuliano o fez, por causa do paradoxo, mas antes apesar dele.
Isso explica a crescente convicção de Eliot de que a cultura e a religião são, em última análise, indissolúveis¹. Ele acreditava que a doença do sentimentalismo poderia ser superada apenas por uma alta cultura, na qual o trabalho de purificação fosse constantemente levado adiante. Essa é a tarefa do crítico e do artista, e é uma tarefa árdua:
E assim cada risco É um novo começo, um assalto ao inarticulado Com equipamento ordinário num eterno degenerar-se Na desordem geral da imprecisão dos sentimentos, Indisciplinados esquadrões de emoção. E o que há por conquistar, Por força e submissão, já foi descoberto Uma ou duas, ou várias vezes, por homens com quem não se pode Tencionar competir – mas não há competição - Há tão só a luta por recuperar o perdido E encontrado e perdido uma e outra vez: e agora, sob condições Que não parecem nada favoráveis²
Esse trabalho de purificação é um diálogo de gerações com aqueles que pertencem à tradição: só uns poucos podem participar dele, enquanto a maior parte da humanidade anda a esmo, assaltada por aqueles “indisciplinados esquadrões de emoção”. A alta cultura dos poucos é, contudo, uma necessidade moral para a maioria: pois ela permite que a realidade humana se mostre, e assim guie nossa conduta. Mas por que a maior parte da humanidade, perdida no sentimentalismo, “distraída da distração pela distração”, deveria ser guiada por “aqueles que sabem”, como Dante colocou (loro chi sanno)? A resposta deve estar na religião, e em particular na linguagem comum que uma religião tradicional confere tanto à alta cultura da arte como à cultura comum de um povo. A religião é a força vital de uma cultura. Ela abastece o estoque de símbolos, histórias e doutrinas que nos permitem falar sobre nosso destino. E ela forma, por meio dos textos sagrados e liturgias, o ponto fixo ao qual o poeta e o crítico podem voltar – a linguagem similar dos crentes ordinários e dos poetas que precisam enfrentar as condições sempre novas de vida pós-conhecimento, a vida em um mundo decaído.
Uma Filosofia Política: Argumentos para o Conservadorismo - Roger Scruton
¹ T. S. Eliot – Notas para a Definição da Cultura
² T. S. Eliot – “East Coker”. In: Four Quartets.
Nenhum comentário:
Postar um comentário