quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Imaginação e Tolerância

[...] No domínio da crença a nossa contínua preocupação é com questões de realidade ou verdade: não se pode crer em nada enquanto não se possa dizer "isto é assim". Mas a literatura, recordamos, jamais faz afirmações desse tipo: aquilo que o poeta e o romancista dizem está mais para "suponhamos esta situação". Daí a impossibilidade de haver uma religião da poesia ou qualquer sistema de crenças fundado na literatura. Quando deixamos de crer numa religião, como o mundo romano deixou de crer em Júpiter e Vênus, os deuses dela convertem-se em personagens literários e retornam para o mundo da imaginação. Porém, uma crença só pode ser substituída por outra. Os escritores têm, é claro, suas crenças pessoais, e é natural sentirmos afeição especial por aqueles que parecem ver o mundo sob a mesma ótica que nós; mas todos sabemos, ou logo percebemos, que a verdadeira grandeza de um escritor mora em outra parte. O mundo da imaginação é um mundo de crenças nascituras ou embrionárias. Se vocês acreditarem no que lerem em literatura, poderão, literalmente, acreditar em tudo.

Vocês podem perguntar, então, qual é a utilidade de estudar um mundo de imaginação onde tudo é possível e tudo é admissível, onde não há certo e errado e onde todos os argumentos têm o mesmo valor. Uma das utilidades mais óbvias, penso eu, é o incentivo à tolerância: na imaginação as nossas próprias crenças são simples possibilidades, e ainda enxergamos as possibilidades das crenças alheias. Fanáticos e preconceituosos raramente tentam tirar algum proveito da arte - estão obcecados demais por suas crenças e ações para enxergá-las como talvez simples possibilidades. Também há o outro extremo: o do diletante eternamente entretido por possibilidades e, assim, desprovido de convicções e poder de ação. Mas estes são bem menos comuns que os fanáticos e, no nosso mundo, bem menos perigosos.

O que produz a tolerância é o poder do distanciamento imaginativo, que nos permite tirar as coisas do alcance da ação e da crença. A experiência é quase sempre trivial; o presente não é tão romântico quanto o passado; os ideais e as grandes visões teimam em tornar-se cafonas e sórdidos na vida prática. A literatura reverte este processo.


A Imaginação Educada - Northrop Frye


Publicado no Facebook em 1 de Abril, 2019

Nenhum comentário:

Postar um comentário