Por fim, há a perspectiva filosófica sobre a morte – a perspectiva que tenta encontrar um sentido nesse destino ao qual todos nós estamos fadados. Agora, não há consenso entre os filósofos sobre como devemos abordar a morte ou sobre qual o significado que ela tem para nós enquanto ainda vivemos. Mas há uma hipótese compartilhada por todos os que já trataram do assunto: a verdade sobre a morte não está exaustivamente contida na visão que a ciência tem dela e, para ser considerada de modo apropriado por seres racionais como nós, a morte precisa ser entendida, da forma como a vida é entendida por aquele que busca viver com retidão. A tarefa da filosofia é descobrir um sentido para a morte, e tirar desse sentido alguma orientação sobre como devemos conviver com nossa mortalidade e parar de nos desesperarmos ao pensar nela.
Talvez a primeira coisa que um filósofo observe seja a grande diferença que existe entre uma sociedade em que a morte é aceita e os mortos são devidamente atendidos e uma em que a morte é um tabu e os mortos são esquecidos. No primeiro tipo de sociedade, os mortos ainda estão presentes entre os vivos – seus túmulos recebem cuidados, seus conselhos ainda são procurados e sua memória é reverenciada como sagrada. Oferecem-lhes libações, e para todas as cerimônias em que a vida é celebrada eles também são convidados. Tais sociedades não olham para a morte com o horror com que a olhamos, e a presença dos mortos parece conferir dignidade e decoro aos eventos sociais organizados pelos vivos. Uma sociedade que nega a morte – e a nossa parece estar caminhando nessa direção – perde-se em prazeres sensuais, deixa de cultivar as virtudes, vê a morte como algo inabordável e a tentativa de enfrentá-la como absurda.
Por essa observação, o filósofo despertará para o papel da morte de conferir sentido e continuidade às instituições sociais humanas. Pessoas que se dão conta da presença dos mortos e do dever de respeitá-los veem sua própria vida de maneira diferente. Elas são administradoras dos benefícios que devem aos mortos. Sua postura diante deles se vê refletida em sua postura diante dos nascituros: gerações ausentes, para eles, merecem respeito, e o fato de estar vivo carrega consigo uma obrigação de transmitir à próxima geração o que foi recebido da última. Em suma, o respeito pelos mortos é um alicerce da responsabilidade social e um motivo para cuidar do futuro.
A segunda coisa que um filósofo provavelmente observará é que a visão científica da morte não nos torna impotentes diante dela. Afinal, temos uma visão científica da vida e, contudo, a vida ainda tem sentido para nós. Podemos ver os seres humanos como a ciência os vê, como um agrupamento de células governado por uma rede de neurônios, e a inda assim reconhecer que eles são distintos do resto da natureza por serem objetos de juízo com atributos morais e pessoais que não podem ser sintetizados em termos meramente biológicos. É justamente desse modo que podemos ver a morte como o cessar de um processo orgânico e, ao mesmo tempo, como um evento na vida de um ser moral – um evento sobre o qual tanto ele quanto nós podemos tomar uma posição pessoal. Numa tragédia, a morte do herói é um evento biológico; mas é também um evento moral, com um sentido complexo que precisa ser entendido por meio de ideias morais. E tragédias nos mostram que podemos encontrar, na morte de outrem, tanto o fim quanto o sentido de sua vida – assim como encontramos sentido na morte de Romeu e Julieta. Os dois amantes da peça de Shakespeare dão prova de seu amor por meio da morte e, como resultado, tornam-se belos a nossos olhos. A morte deles lança uma luz sobre sua vida e enobrece o amor que conduziu a ela. Talvez possamos todos viver desse modo e talvez, se pudermos, devamos ver a morte não como uma cessação, mas como uma fronteira, um limite que dá sentido aos eventos que conduzem a ela.
Uma Filosofia Política: Argumentos para o Conservadorismo - Roger Scruton
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