segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Autocontenção e Autoexpressão

Há, é claro, outras explicações para as bebedeiras em massa nas grandes e pequenas cidades britânicas além da perda coletiva de autocontrole a que recorri. Não são, contudo, explicações alternativas, no sentido de estarem em completa contradição com a minha explicação favorita. Por exemplo, há o preço do álcool. Quando o preço diminui, o consumo aumenta (economistas clássicos esperariam isso em relação a qualquer produto). E, de fato, o preço do álcool caiu significativamente em relação às horas de trabalho necessárias para produzi-lo, apesar dos altos impostos. Os rendimentos discricionários aumentaram precisamente no momento em que a própria discrição diminuiu.

Além disso, a regulamentação dos licenciamentos foi progressivamente afrouxada. Costumava ser proibida uma aglomeração de bares em uma pequena área, mas agora isso não é apenas permitido, como também positivamente, encorajado. Não só o número, mas o tamanho dos bares aumentou. Muitos deles acomodam centenas e até mesmo milhares de pessoas. O barulho gerado ali é tão grande (ao qual se soma a música agitada) que a noção de beber socialmente enquanto se conversa torna-se risível. Desse modo, todos bebem em maior quantidade e rapidez, quase como se competissem uns com os outros.

Mas, não obstante o preço baixo das bebidas e o tamanho e o estilo dos bares, a pergunta permanece: por que centenas de milhares e talvez milhões de jovens britânicos optaram por se comportar da maneira como se comportam? Por que eles não só vão a esses bares, mas consideram isso o ponto alto de suas existências, pelo qual mal podem esperar? Por que eles se reúnem em grandes rebanhos, nos quais se mostram incapazes de um discurso distinguível, a única coisa que nos torna humanos?

Eles fazem isso especificamente para ter uma desculpa, um pretexto, para perder o autocontrole. Perder o controle individualmente ainda seria arriscado, mas perde-lo em meio a uma multidão de milhares de pessoas confere imunidade e mesmo absolvição moral. Um indivíduo em uma rua à noite pode ser preso por estar bêbado e causando desordem, mas não mil indivíduos. Há segurança na quantidade.

Mas por que alguém na Grã-Bretanha desejaria perder ou ao menos deixar de lado o autocontrole? Por que alguém desejaria perder ou deixar de lado suas inibições sociais e se comportar de forma tola, perigosa e pouco atraente?

Já vimos que a autocontenção deixou de ser uma virtude e se tornou um defeito. Uma pessoa que se contém é suspeita do crime de estar fora de moda, uma adversária do novo modo de ser britânico, uma inimiga do povo.

O oposto da autocontenção é a autoexpressão espontânea. Não surpreende, então, que as pessoas comam onde e como querem. Baseadas em quê, além de suas inclinações pessoais, elas decidiram isso? Quem, além do indivíduo em questão, tem o direito de decidir a esse respeito? Uma sociedade na qual as pessoas não tivessem o direito de fazer essa escolha não seria intoleravelmente autoritária?


Lixo – Como a sujeira dos outros molda a nossa vida – Theodore Dalrymple


Publicado no Facebook em 29 de Março, 2019

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