quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Preço e Preferência

Certa vez, almocei com um economista defensor do livre-mercado que afirmou que o hábito de comer alimentos prontos era, ao menos para os mais pobres, uma escolha economicamente racional. Eu disse que tinha muitas dúvidas quanto a isso, e suspeitei que ele tivesse comprometimento ideológico com a noção de homo economicus, o homem que responde às circunstâncias conforme um cálculo racional de custos e benefícios econômicos, e a nenhum outro estímulo. Em resposta, ele disse que estudos científicos tinham comprovado o que afirmava. Contudo, na área em que eu vivia na época, havia mercados cujos donos e fregueses eram asiáticos, nos quais era possível comprar dez quilos de cebolas por dois terços do preço de um hambúrguer do McDonald’s, e outros produtos tinham preços similarmente baixos. Eram os asiáticos economicamente irracionais por comprarem lá?

Passei a desconfiar dos cálculos dos economistas desde que visitei a Romênia, de Ceauscu, quando eles estimavam que o crescimento do país fora, por muitos anos, vertiginoso. No entanto ainda não havia batatas nos mercados, e, quando acontecia de elas aparecerem, coisa rara, uma fila, na qual as pessoas estavam preparadas a esperar por muitas horas, formava-se de imediato.

De qualquer forma, o economista com quem conversei presumia que a racionalidade econômica era a racionalidade pura. Uma vez que ficara estabelecido que comer alimentos prontos era a forma mais barata de encher o estômago, não havia mais nada a ser dito sobre o assunto. Mas é verdade que, se as pessoas escolhem os meios mais baratos para atingir seus objetivos, suas escolhas são, portanto, indiscutíveis? É mesmo verdade que 40 milhões de porcalhões e preguiçosos não podem estar errados? Por extensão, só porque suas escolhas parecem economicamente racionais, elas estão fora da esfera do debate?

Mas, nesse caso, o que eu quero dizer com “errado”? O que é uma escolha errada em se tratando de comida? O que nós comemos não é uma mera questão de preferência pessoal e, por essa razão, está além do bem e do mal? Não é mais uma questão de aceitar que, no que concerne à escolha da comida, bem como em outras questões de gosto, o que quer que seja, está certo? Uma escolha, como Gertrude Stein¹ poderia colocar, é uma escolha. O livre-mercado é tanto moral quanto esteticamente neutro.


Lixo – Como a sujeira dos outros molda a nossa vida – Theodore Dalrymple

¹ Dalrymple parafraseia um verso do pema “Sacred Family” (1913), de Gertrude Stein (1874-1946): “Rose is a rose is a rose is a rose”.


Publicado no Facebook em 28 de Maio, 2019

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