Passei a desconfiar dos cálculos dos economistas desde que visitei a Romênia, de Ceauscu, quando eles estimavam que o crescimento do país fora, por muitos anos, vertiginoso. No entanto ainda não havia batatas nos mercados, e, quando acontecia de elas aparecerem, coisa rara, uma fila, na qual as pessoas estavam preparadas a esperar por muitas horas, formava-se de imediato.
De qualquer forma, o economista com quem conversei presumia que a racionalidade econômica era a racionalidade pura. Uma vez que ficara estabelecido que comer alimentos prontos era a forma mais barata de encher o estômago, não havia mais nada a ser dito sobre o assunto. Mas é verdade que, se as pessoas escolhem os meios mais baratos para atingir seus objetivos, suas escolhas são, portanto, indiscutíveis? É mesmo verdade que 40 milhões de porcalhões e preguiçosos não podem estar errados? Por extensão, só porque suas escolhas parecem economicamente racionais, elas estão fora da esfera do debate?
Mas, nesse caso, o que eu quero dizer com “errado”? O que é uma escolha errada em se tratando de comida? O que nós comemos não é uma mera questão de preferência pessoal e, por essa razão, está além do bem e do mal? Não é mais uma questão de aceitar que, no que concerne à escolha da comida, bem como em outras questões de gosto, o que quer que seja, está certo? Uma escolha, como Gertrude Stein¹ poderia colocar, é uma escolha. O livre-mercado é tanto moral quanto esteticamente neutro.
Lixo – Como a sujeira dos outros molda a nossa vida – Theodore Dalrymple
¹ Dalrymple parafraseia um verso do pema “Sacred Family” (1913), de Gertrude Stein (1874-1946): “Rose is a rose is a rose is a rose”.
Publicado no Facebook em 28 de Maio, 2019
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