terça-feira, 29 de outubro de 2019

Crime e Lógica

– Olha, meu amigo, desde a tua festa de ontem que a minha cabeça... Ainda me sinto tonto – começou num tom completamente diferente, dirigindo-se a Raumíkhin.

– O quê? A reunião estava boa? Casualmente tive que sair no ponto mais interessante... Quem é que levou a melhor?

– Ninguém, naturalmente. Discutiram as eternas questões, exaltaram-se.

– Imagina, Rodka, o que chegaram a discutir: se o crime existe ou não. Fartaram-se de dizer bobagens.

– E o que tem isso de extraordinário? É uma questão social vulgar – respondeu Raskólhnikov com o ar distraído.

– Não foi assim que eles puseram a questão – observou Porfíri.

– É verdade – concordou logo Razumíkhin, atrapalhando-se e exaltando-se, conforme o seu costume. – Olha, Rodka, primeiro escuta, e depois dá a tua opinião. Gostaria que o fizesses. Ontem, eu estava numa ansiedade a tua espera, tinha prometido a eles que tu irias... A coisa começou pelo ponto de vista dos socialistas. Já se sabe qual é: o crime é um protesto contra a anormalidade do regime social... isso e só isso, e é desnecessário procurar outras causas. Acabou-se!

– Mentira! – exclamou Porfíri Pietróvitch. Era notório que estava entusiasmado, e sorria a cada instante, olhando para Razumíkhin.

– Mentira! Vou te mostrar os livros; segundo eles, todos os crimes se devem ao ambiente insalubre, e nada mais. Frase magnífica! De onde se deduz que, se a sociedade estivesse normalmente constituída, então acabariam todos os crimes, visto que já não haveria contra o que protestar e todos passariam instantaneamente a ser inocentes. Quanto à natureza, não a levam em consideração, puseram–na no olho da rua, não toleram a natureza. Para eles não é a natureza que, desenvolvendo-se de um modo histórico, vivo, até o fim, acabará por se transformar ela mesma numa sociedade normal, mas, pelo contrário, será o sistema social que, brotando de alguma cabeça matemática, procederá em seguida a estruturar toda a humanidade e, num abrir e fechar de olhos, a tornará justa e inocente, mais depressa do que qualquer processo vivo, sem seguir nenhum caminho histórico e natural. Por isso eles sentem instintivamente aversão pela história: nela só se encontra monstruosidade e estupidez; colocam todas as culpas em cima da estupidez. E por isso também não amam o processo “vital” da vida; não querem nada com a “alma viva”. A alma viva da vida tem exigências; a alma viva não obedece mecanicamente; a alma viva é suspeita; a alma viva é retrógada. E, embora cheire a mortos, eles podem construir com a alma de borracha... que não será viva nem terá vontade, será uma escrava e não se revoltará... E chegam ao ponto de idealizar um simples amontoado de tijolos, sim, a distribuição de corredores e quartos do falanstério. O falanstério está pronto, mas a vossa natureza não está preparada para o falanstério, anseia pela vida, o processo vital ainda não terminou, ainda é cedo para a cova. É simplesmente impossível saltar com a lógica por cima da natureza. A lógica pressupõe três casos, ao passo que há milhões deles. Pois façam tábua rasa desses milhões e reduzam tudo ao simples problema do conforto! Essa é a solução mais fácil do enigma. De uma clareza sedutora, e evita o incômodo de pensar. Porque o essencial é isto: não ter que pensar. Todos os mistérios da vida podem ser compendiados em duas folhas de papel impresso.

– Pronto, enlouqueceu?! É preciso botar a mão nele! – gracejou Porfíri. – Imagine seis pessoas metidas num quarto e, além disso, previamente encharcadas em álcool... Já pode fazer uma idéia! Não, meu amigo, tu mentes: o meio significa muito na criminalidade, isso eu te afirmo.

– Eu também sei que influi muito, mas me diz: um quarentão desonra uma menina de dez anos. Foi o meio que o induziu a isso?

– Sim, no estrito sentido da palavra, pode-se dizer que foi o meio – observou Porfíri com uma grave firmeza –, pode se explicar o crime, em grande parte, pela menina, e, em grande parte também, pelo meio.

Razumíkhin ficou furioso.


Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski

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