- Bem – interrompeu Páviel Pietróvitch -, concordo provisoriamente. Convenceu-se de tudo isso e resolveu não se ocupar seriamente de coisa alguma.
- Resolvemos realmente não nos preocupar com coisa alguma – repetiu em tom lúgubre Bazárov. Invadia-o uma raiva de si mesmo pelo fato de ter-se expandido tanto com aquele aristocrata.
- E somente ofender tudo e a todos? – continuou o aristocrata.
- Ofender também.
- É o niilismo?
- É o niilismo – repetiu Bazárov com ar de desafio.
Páviel Pietróvitch fechou de leve seus olhos.
- Agora compreendo! – disse com voz esquisitamente calma. – O niilismo deve auxiliar-nos em todas as desgraças. Os senhores são nossos salvadores e heróis. Sim. Porque nesse caso acusam os próprios acusadores. Não vivem de palavras vãs como os demais.
- Podemos ter outros pecados, menos esse – disse Bazárov.
- Como? Os senhores agem? Pretendem agir?
Bazárov nada respondeu: Páviel Pietróvitch teve um estremecimento e logo reconquistou o domínio de si mesmo.
- Sim... agir, destruiur – continuou. – Destroem sem saber para quê?
- Destruímos, porque somos uma força – explicou Arcádio.
Páviel Pietróvitch olhou para seu sobrinho e sorriu.
- Sim, somos uma força que age livremente – insistiu Arcádio com veemência.
- Desgraçados! – gritou Páviel Pietróvitch. Perdeu definitivamente o controle de si mesmo. – Se ao menos pensasse no que, na Rússia, você está defendendo com essa vulgaridade! Não. Tudo isso é de fazer perder a paciência a um anjo! Força! Num selvagem, num mongol também existe força. De que nos serve ela? É-nos cara a civilização. São-nos caros os seus frutos. Não me diga que os frutos da civilização nada valem. O último dos indecentes, um barbouilleur*, um escamoteador de jogo que recebe cinco moedas por noite são mais úteis do que os senhores, porque representam a civilização e não a força brutal dos mongóis! Pensam os senhores que são homens da vanguarda. Estariam bem numa cabana de selvagens! Força! Lembrem-se, afinal, senhores da força, de que são apenas quatro pessoas e meia, e contra os senhores existem milhões que não lhes permitirão calcar aos pés suas crenças sagradas. Esmagá-los-ão!
- Se esmagarem, assim é preciso – disse Bazárov. – Mas não somos tão poucos como o senhor supõe.
- Como? Pretende chegar seriamente a um acordo com todo o povo?
- Saiba o senhor que a cidade de Moscou já foi destruída pelo incêndio causado por uma vela de 1 copeque – respondeu Bazárov.
- Vejo primeiramente um orgulho quase satânico. Depois, sacrilégio. Aí está o que preocupa a mocidade! Aí está o que domina os corações inexperientes dos meninos de hoje! Olhe este aqui que está sentado a seu lado. Só falta rezar para o senhor (Arcádio fitou-o, sério). Esse mal já se espalhou demasiado, contaminando muitos. Disseram-me que em Roma, os nossos artistas não visitam nunca o Vaticano, consideram idiota a Rafael, só porque ele é autoridade. Eles mesmos não tem talento. São verdadeiras nulidades. A sua fantasia ou imaginação não vai além da Jovem da Fonte, quando chega para tal. O senhor conhece o valor artístico desse quadro, péssimo em todos os sentidos. Segundo sua opinião, será (essa atitude) um defeito ou ótima qualidade?
- Segundo minha opinião – respondeu Bazárov -, nem Rafael vale um ceitil, nem os nossos são melhores que Rafael.
- Bravo! Ouça, Arcádio... Assim devem pensar os moços de hoje! Como, nesse caso, não hão de segui-los! Antigamente os moços eram obrigados a estudar: não queriam passar por imbecis e por isso trabalhavam. Agora basta que afirmem: “Tudo no mundo não tem valor!” E está bem. A juventude ficou satisfeita. Outrora os moços eram simples idiotas ou inúteis, hoje se tornaram de súbito niilistas.
- Traiu-o o seu sentimento, tão proclamado, da própria dignidade – observou fleumático Bazárov, enquanto Arcádio assumia um ar importante e seus olhos brilhavam. – A nossa discussão foi muito longe... É melhor termina-la. Concordarei somente com o senhor – acrescentou, levantando-se – quando me indicar uma só instituição da nossa época, social ou familiar, que não seja passível de uma negação completa e irrefutável.
Pais e Filhos – Ivan Turgueniev
* Tagarela, trapalhão.
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