Junto da palavra "motivação" estão as palavras "responsabilidade" e "liberdade". Para um ato ser bom, ele precisa ter um objetivo positivo e um meio de ação também positivo. Caso contrário, o ato será apenas parcialmente bom. Sem esta idéia em mente, a tendência é acreditar que está tudo bem com a educação dos filhos se entregarem bons resultados. Se acordam na hora certa, fazem o dever de casa e interagem com os outros, os pais acreditam que está tudo bem, porque o objetivo final está sendo alcançado. Contudo, fazendo uma avaliação da rotina dos filhos, é preciso se perguntar se o meio através do qual eles executam as ações e conquistam o objetivo é um meio bom - responsável e livre. A criança faz essas coisas, por assim dizer, em primeira pessoa? Pois isso seria uma ação responsável, e é isso que os pais devem buscar. Num primeiro momento pode parecer um ideal muito distante, mas se a única maneira de fazer um filho obedecer é a ameaça e a intimidação, as coisas não andam bem, e é na adolescência que os pais colherão os piores frutos - amargos, azedos, imaturos.
O objetivo dos pais não deve ser uma educação de quartel, com as crianças marchando, perfiladas, pois isso mina a espontaneidade e a graça da vida. Mas também não pode ser uma zona completamente disforme sem nenhum princípio de hierarquia. É muito difícil para os pais escapar de um dos extremos: a casa será um quartel ou uma bagunça. Eles precisam notar que a educação por meio de ameaças funciona por muito pouco tempo, e sua validade expira no momento em que a criança entende que os pais não vão puni-lo ou agredi-lo fatalmente. Quando a criança entende que o pai mais late do que morde, pára de obedecer, e os pais perdem sua autoridade. O resultado da perda da autoridade é perderem também a capacidade de motivar os filhos.
Outra forma comum utilizada para motivar as crianças é através de prêmios ou compensações. Esse tipo de motivação pode parecer eficaz por algum tempo - muitos manuais de motivação o indicam -, mas logo perde a eficácia e a validade, pois o impulso para realizar a ação não é intrínseco, mas externo a ela. Além disso, esse tipo de motivação gera efeitos bastante nocivos: o de não aprender a valorizar o que se está fazendo e o que se tem, já que, colocando o prêmio como algo mais valioso do que todas as outras coisas, a criança vislumbra apenas o prêmio, e não a ação. Dessa maneira será necessário aumentar o prêmio indefinidamente, pois a criança se dá conta de como obter tudo o que quer, e os pais viram presas desse ciclo.
A motivação que os pais devem dar aos filhos não deve provir da ordem, do comando, e nem dos desejos imediatos. Deve, sim, ser uma motivação transcendente, um ideal que mova a criança por atração. A criança tem de querer o bem simplesmente porque é o bem - tem de querer comer tudo porque é melhor para a sua saúde, tem de querer estudar por compreender que o conhecimento é bom, privar-se de bater nos irmãos porque isso é mau, etc. Como alcançar isso? Ordenadas em direção a esse ideal é que se articulam as punições e os prêmios, não utilizados extrinsecamente, mas como um anexo, mas intrinsecamente, como estímulo em vista do próprio bem - do bem da família, da saúde, do outro. Pode-se usar, aí, motivações que ajudem a criança a querer querer; de preferência algo não-material, como dizer: "se você fizer o que precisa, teremos tempo para uma história antes de dormir", ou para "uma partida de xadrez", "para você poder fazer um desenho", etc., e não "uma barra de chocolate se terminar a comida". Assim as crianças percebem o valor intrínseco de suas atitudes, e passam a fazer de bom grado o que os pais pedem. Evidencia-se assim valor do afeto e como ele é importante na vida da casa; elas aprendem que o que importa de fato é o convívio familiar, e se tornam mais doces e maleáveis.
Estas são as duas noções fundamentais para se motivar ou educar os filhos: um agir responsável, pelo qual respondam em primeira pessoa, e a liberdade de ação, de modo que a criança tenha a opção de não fazer aquilo, mas faça, no entanto, por entender que há ali um objetivo nobre e bom, que ela quer atingir por meios também nobres e bons. Nisso os pais verão que seu propósito de educar os filhos foi cumprido. Sabendo o que se quer da educação, é preciso pensar o que fazer para motivar cada temperamento, pois as suas fontes de motivação e inspiração são diferentes. Não é possível, como já deduziu o leitor, motivar um colérico do mesmo modo que um fleumático, ou atrair um melancólico da mesma maneira que um sangüíneo.
Os 4 Temperamentos na Educação dos Filhos - Dr. Ítalo Marsili
Publicado no Facebook em 16 de Abril, 2019
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