Apesar disso, entende-se por que o poeta ganhou a reputação de mentiroso autorizado: o próprio termo poeta quer dizer "mentiroso" em algumas línguas, e os termos que usamos em crítica literária, fábula, ficção, mito, vieram todos a significar algo em que não se pode acreditar. Na era vitoriana, muitos pais proibiam os filos de ler romances por não dizerem "a verdade". Hoje, porém, não encontraremos muitas pessoas razoáveis que neguem aos poetas a prerrogativa de alterar os fatos a seu bel-prazer quando tomam um tema da história ou da vida corrente. Um historiador faz afirmações específicas e particulares, como "A batalha de Hastings ocorreu no ano de 1066", e é julgado pela veracidade ou falsidade do que afirma - ou ocorreu a tal batalha na tal data ou não. Já o poeta, diz Aristóteles, nunca faz afirmações factuais, muito menos particulares ou específicas. Não é a função do poeta informar-nos o que aconteceu, mas o que acontece. Ele não nos conta aquilo que se deu, mas aquilo que se dá sempre - o evento típico, recorrente ou, como chama Aristóteles, universal. Não leríamos Macbeth para aprender sobre a história escocesa - lemos Macbeth para descobrir o que se passa com um homem que conquista um reino à custa de sua alma. Quando, no David Copperfield, de Dickens, encontramos um personagem como Micawber, nossa sensação não é que Dickens chegou a conhecer um homem tal e qual, mas sim que há algo de Micawber em todas as pessoas que conhecemos e em nós mesmos. Nossas impressões sobre a vida humana vão acumulando-se uma a uma e, para a maioria de nós, permanecem vagas e desorganizadas. Na literatura, porém, muitas dessas impressões de repente ganham ordem e foco. Isto é parte do que Aristóteles quer dizer quando fala em evento humano típico ou universal.
A Imaginação Educada - Northrop Frye
Publicado no Facebook em 29 de Março, 2019
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