A velocidade com que uma doutrina dos direitos ainda mais expandida foi aceita é impressionante (ao menos para mim). Ela não é apenas inquestionada, mas inquestionável. Certa vez, perguntei a uma paciente de dezessete anos qual era a sua ambição. Ela me disse que queria ser advogada, e perguntei se havia algum ramo do direito que a interessava mais.
- Direitos humanos – ela respondeu com um sorriso beatífico se desenhando nos lábios, como se fosse uma garota devota anunciando sua vocação. Embora ela ainda não soubesse, aquilo era 100% filantropia.
- Ah sim - eu disse. – E de onde vêm os direitos humanos?
Ela olhou para mim com horror, como se eu tivesse cometido um terrível faux pas social.
- O que você quer dizer? – perguntou.
- Bem – eu disse -, eles estavam lá para ser descobertos, como Colombo descobriu a América, ou foram inventados como Hans Christian Andersen inventou suas histórias, ou são apenas concedidos pelos governos, podendo, nesse último caso, ser facilmente revogados pelos governantes?
- Você não pode me perguntar isso – ela disse, como se sentisse dor.
Não insisti no assunto, mas basta dizer que eu não esperava que meu ceticismo tivesse muito efeito sobre a fé dela, uma mistura de idealismo juvenil, presunção e avaliação sagaz das possibilidades de carreira.
A população, no entanto, não tem dúvidas quanto à origem metafísica dos direitos humanos: eles estão inscritos na constituição do universo. Um direito não pode ser revogado, pois, do contrário, não seria um direito em primeiro lugar; nem pode ser limitado por qualquer tipo de restrição, ou do contrário, de novo, não seria um direito. Se eu tenho o direito de ouvir minha música, eu o tenho aqui e agora, e no volume que quiser. Se alguém que estiver por perto reivindicar seu direito ao silêncio, a diferença entre nós pode ser resolvida mediante uma competição de rispidez na reinvindicação de nossos respectivos direitos. Não surpreende que nesse contexto é a pessoa mais violenta que consegue o que quer. Pessoas revestidas de direitos – e quase todos os dias sabemos de novos direitos – são naturalmente inclinadas a pensar em si mesmas como seres supremamente importantes. Primeiro, a teoria heliocêntrica do sistema solar e, depois, a teoria da evolução podem ter tirado o homem do pedestal que ele mesmo erigiu, mas a doutrina dos direitos humanos o colocou de volta, ainda que com uma diferença: antes, era a humanidade que estava no pedestal; agora, o indivíduo.
Lixo – Como a sujeira dos outros molda a nossa vida – Theodore Dalrymple
Publicado no Facebook em 30 de Maio, 2019
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